Voltando do Inferno
Quando decidi escrever esta crônica e escolhi seu título, fiquei estupefato comigo mesmo. Ando falando demais no capeta e nosso Pai Celeste há de vir em meu socorro e exorcizar-me, Amém.
Dei o comando no processador de textos. Conto quantas vezes falei na casa do tinhoso. Uma, duas, três, quatro... Nossa!!! E vou falar de novo?
Era preciso, de maneiras que, também contado, Deus arrasou geral, deixou o cara no maior vácuo com vinte e oito onipresentes citações. Alívio!
Encontrei-me pois redimido e pus-me à tarefa de especular sobre o retorno das profundezas. Não, o amigo não creia que falarei de almas penadas. Falarei dos vivos. Falarei de Empresas. Falarei de pessoas em Empresas.
No projeto de Gestão de Conhecimento que estamos construindo, combinamos uma excursão ao inferno, já contei isso. A tal excursão, de péssimo gosto, dirão muitos, constitui-se em levar ao extremo a pressão empresarial e, por decorrência, arterial. Exercitar, até onde possamos agüentar, o que dizem fazer muitas empresas: pouca conversa, muita ação, só resultados!
Dizer que a vida seria a mesma sem o belzebu pra perder sempre de Deus eu não vou dizer. Eu confesso que, mesmo não sendo dado a exibicionismos, o Criador é assim, uma espécie de Seleção Brasileira, quando se trata de esnobar o andar de baixo. Dá gosto ver. Então devo encarar a vida e, sobretudo, a vida dentro de uma empresa, como uma partida, um jogo, pura diversão. A questão desta crônica, ei-la, é justamente o critério: quem, de verdade, vence o jogo?
As opiniões se dividem.
Já fomos capazes de muitas coisas em nosso projeto. Criamos comunidades, sumimos com papel, tiramos gavetas, enchemos a empresa de plantas, mudamos as mesas e os quadros, uma vida de simplicidade empresarial. Os resultados surgiram, mas havia quem dissesse que não valiam muito, que precisávamos de muito mais, deixando escapar sua pressa e incontinência.
Fomos cutucar a onça com vara curta. O decaído lá, na sua mesmice, e nós fomos dizer a ele que nos interessava saber como era aquilo de ter muito mais resultados. Cabe informar que fui à reunião pessoalmente. Sentei-me, muito sem jeito, e comecei minha preleção:
_ Boa tarde, Senhor capeta.
_ A minha não!
Senti um quê de irritação na resposta, mas julguei que era próprio da função, uma misantropia desatinada, justo comigo que, potencialmente, seria um cliente. Mas garrei com a fé no Poderoso e continuei:
_ A questão é a seguinte: nos disseram que os resultados não estão bons lá na companhia, de formas que a gente queria conhecer suas técnicas, muito recomendadas. A turma queria passar uns tempos assim, vamos dizer, no bafo do leão, aumentar a pressão, sentir um excesso de adrenalina, V. Ex.a compreende?
_ Mais?
_ Não entendi o mais, V. Ex.a...
_ Haam, haam.
O Diabo raspou a garganta tentando disfarçar um certo incômodo e se acertou na cadeira.
_ Nós podemos tratar disso. Vejamos. Posso mandar um dos meus assistentes que vai assumir a diretoria...
Tremi e soltei um Deus-me-livre que irritou profundamente o coisa-ruim.
_ O senhor me respeite! Ele gritou e bateu a mão na mesa.
_ V. Ex.a há de me perdoar, mas não haveria a possibilidade de eu fazer só um curso, algo através da Educação a Distância. V. Ex.a sabe, está muito em moda...
_ E pare de me chamar de V. Ex.a!!!
_ Então o senhor me desculpe, mas é que vi outro dia na televisão que a gente deve tratar assim, com respeito, não importa quem seja.
_ Anota aí.
Calei-me, ainda assustado, e comecei a tomar nota:
1) Esquece qualquer possibilidade de compreensão. O negócio é linha dura. Bate pra valer na equipe. E se o cara cumprir, aumenta a exigência. Se ele acostuma fica frouxo.
2) Nada de elogios. Trabalho é obrigação e se o cara faz melhor não faz diferença.
3) Este negócio de ambiente é conversa fiada. Tira música. Tira planta. Tira tudo e toca trabalho. Quem trabalha não tem tempo de pensar nessas coisas.
4) Se encontrar erro de alguém, bate pra abater o moral, senão o cara empina. Esse negócio de corrigir pra fazer o cabra crescer é coisa de lerdo. Errou, levou, compreendeu? Nunca corrige um cara tentando que ele melhore, nunca!
Engoli em seco.
5) Todo mundo precisa estudar, mas não deixa virar bagunça. Se o cidadão começar a ter prazer é porque está errado. Tem que suar muito, tem que sofrer pra dar valor, entendeu? Nada de dizer que ele é capaz. Tem é que exigir e pronto. Fim!
6) Quem não cumpre resultado é incompetente e chefe tem sempre razão. A culpa é do mais fraco. Ponto!
7) Tem que trabalhar muito e depois da hora. Se não fizer isso ta errado. E nada de explicar que planejamento de tempo tem a ver com simplificação e qualidade de vida e nem deixe ninguém saber que pode fazer tudo que precisa em oito horas, bem combinadas. Melhor o cara viver saturado, que assim dá valor ao emprego.
8) Precisamos de mais papel. Mesa cheia é oficina para mim. Você não quer inferno? Entope as mesas de papéis para serem despachados.
9) E E-mails, muitos e-mails. E pouco objetivos. E-mail confunde e tonteia. Aí você dá nos rins, compreendeu?
10) Os bons resultados são seus, ok? Nada de dividir! Repete pra eu ver se decorou: acertou é você. Errou é ele, certo?
Levantei-me, muito sem jeito, amuado mesmo. Agradeci e fui saindo. Tinha certeza que me fizeram perder tempo, mas valeu o conhecimento, sempre vale, não é mesmo?
Desde então, na nossa excursão ao inferno, fico pensando se convenço alguém. Fico mesmo pensando se fomos ao inferno, se ainda vamos ou se já estamos voltando. Fico pensando se Deus, na sua sabedoria, não teria lá uma nova versão dos dez mandamentos, uma digamos, corporativa, que eu pudesse usar e chegar nos mesmos lugares que o Demônio, com muito mais tranqüilidade. Fico pensando quantos mais acreditam nisso, de verdade.
Dizem que Deus é equilíbrio. Acho que prefiro esse jeito de ter resultados. Mesmo que eu vá ao inferno, não me canso de repetir, farei isso olhando para o céu.
A propósito: desisti de contratar os serviços do Belzebu. Além disso, cobra caro que só ele mesmo. Lá em cima encontrei o serviço muito mais em conta.
Lá é de Graça!
Dei o comando no processador de textos. Conto quantas vezes falei na casa do tinhoso. Uma, duas, três, quatro... Nossa!!! E vou falar de novo?
Era preciso, de maneiras que, também contado, Deus arrasou geral, deixou o cara no maior vácuo com vinte e oito onipresentes citações. Alívio!
Encontrei-me pois redimido e pus-me à tarefa de especular sobre o retorno das profundezas. Não, o amigo não creia que falarei de almas penadas. Falarei dos vivos. Falarei de Empresas. Falarei de pessoas em Empresas.
No projeto de Gestão de Conhecimento que estamos construindo, combinamos uma excursão ao inferno, já contei isso. A tal excursão, de péssimo gosto, dirão muitos, constitui-se em levar ao extremo a pressão empresarial e, por decorrência, arterial. Exercitar, até onde possamos agüentar, o que dizem fazer muitas empresas: pouca conversa, muita ação, só resultados!
Dizer que a vida seria a mesma sem o belzebu pra perder sempre de Deus eu não vou dizer. Eu confesso que, mesmo não sendo dado a exibicionismos, o Criador é assim, uma espécie de Seleção Brasileira, quando se trata de esnobar o andar de baixo. Dá gosto ver. Então devo encarar a vida e, sobretudo, a vida dentro de uma empresa, como uma partida, um jogo, pura diversão. A questão desta crônica, ei-la, é justamente o critério: quem, de verdade, vence o jogo?
As opiniões se dividem.
Já fomos capazes de muitas coisas em nosso projeto. Criamos comunidades, sumimos com papel, tiramos gavetas, enchemos a empresa de plantas, mudamos as mesas e os quadros, uma vida de simplicidade empresarial. Os resultados surgiram, mas havia quem dissesse que não valiam muito, que precisávamos de muito mais, deixando escapar sua pressa e incontinência.
Fomos cutucar a onça com vara curta. O decaído lá, na sua mesmice, e nós fomos dizer a ele que nos interessava saber como era aquilo de ter muito mais resultados. Cabe informar que fui à reunião pessoalmente. Sentei-me, muito sem jeito, e comecei minha preleção:
_ Boa tarde, Senhor capeta.
_ A minha não!
Senti um quê de irritação na resposta, mas julguei que era próprio da função, uma misantropia desatinada, justo comigo que, potencialmente, seria um cliente. Mas garrei com a fé no Poderoso e continuei:
_ A questão é a seguinte: nos disseram que os resultados não estão bons lá na companhia, de formas que a gente queria conhecer suas técnicas, muito recomendadas. A turma queria passar uns tempos assim, vamos dizer, no bafo do leão, aumentar a pressão, sentir um excesso de adrenalina, V. Ex.a compreende?
_ Mais?
_ Não entendi o mais, V. Ex.a...
_ Haam, haam.
O Diabo raspou a garganta tentando disfarçar um certo incômodo e se acertou na cadeira.
_ Nós podemos tratar disso. Vejamos. Posso mandar um dos meus assistentes que vai assumir a diretoria...
Tremi e soltei um Deus-me-livre que irritou profundamente o coisa-ruim.
_ O senhor me respeite! Ele gritou e bateu a mão na mesa.
_ V. Ex.a há de me perdoar, mas não haveria a possibilidade de eu fazer só um curso, algo através da Educação a Distância. V. Ex.a sabe, está muito em moda...
_ E pare de me chamar de V. Ex.a!!!
_ Então o senhor me desculpe, mas é que vi outro dia na televisão que a gente deve tratar assim, com respeito, não importa quem seja.
_ Anota aí.
Calei-me, ainda assustado, e comecei a tomar nota:
1) Esquece qualquer possibilidade de compreensão. O negócio é linha dura. Bate pra valer na equipe. E se o cara cumprir, aumenta a exigência. Se ele acostuma fica frouxo.
2) Nada de elogios. Trabalho é obrigação e se o cara faz melhor não faz diferença.
3) Este negócio de ambiente é conversa fiada. Tira música. Tira planta. Tira tudo e toca trabalho. Quem trabalha não tem tempo de pensar nessas coisas.
4) Se encontrar erro de alguém, bate pra abater o moral, senão o cara empina. Esse negócio de corrigir pra fazer o cabra crescer é coisa de lerdo. Errou, levou, compreendeu? Nunca corrige um cara tentando que ele melhore, nunca!
Engoli em seco.
5) Todo mundo precisa estudar, mas não deixa virar bagunça. Se o cidadão começar a ter prazer é porque está errado. Tem que suar muito, tem que sofrer pra dar valor, entendeu? Nada de dizer que ele é capaz. Tem é que exigir e pronto. Fim!
6) Quem não cumpre resultado é incompetente e chefe tem sempre razão. A culpa é do mais fraco. Ponto!
7) Tem que trabalhar muito e depois da hora. Se não fizer isso ta errado. E nada de explicar que planejamento de tempo tem a ver com simplificação e qualidade de vida e nem deixe ninguém saber que pode fazer tudo que precisa em oito horas, bem combinadas. Melhor o cara viver saturado, que assim dá valor ao emprego.
8) Precisamos de mais papel. Mesa cheia é oficina para mim. Você não quer inferno? Entope as mesas de papéis para serem despachados.
9) E E-mails, muitos e-mails. E pouco objetivos. E-mail confunde e tonteia. Aí você dá nos rins, compreendeu?
10) Os bons resultados são seus, ok? Nada de dividir! Repete pra eu ver se decorou: acertou é você. Errou é ele, certo?
Levantei-me, muito sem jeito, amuado mesmo. Agradeci e fui saindo. Tinha certeza que me fizeram perder tempo, mas valeu o conhecimento, sempre vale, não é mesmo?
Desde então, na nossa excursão ao inferno, fico pensando se convenço alguém. Fico mesmo pensando se fomos ao inferno, se ainda vamos ou se já estamos voltando. Fico pensando se Deus, na sua sabedoria, não teria lá uma nova versão dos dez mandamentos, uma digamos, corporativa, que eu pudesse usar e chegar nos mesmos lugares que o Demônio, com muito mais tranqüilidade. Fico pensando quantos mais acreditam nisso, de verdade.
Dizem que Deus é equilíbrio. Acho que prefiro esse jeito de ter resultados. Mesmo que eu vá ao inferno, não me canso de repetir, farei isso olhando para o céu.
A propósito: desisti de contratar os serviços do Belzebu. Além disso, cobra caro que só ele mesmo. Lá em cima encontrei o serviço muito mais em conta.
Lá é de Graça!
Amizade Colaboração Educação Fé Felicidade Gestão Gestão de Conhecimento Gestão de Tempo Saúde Simplicidade Corporativa Tempo
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30 de Março de 2009