Sobre Patos
Sobre Patos"A coragem de que falamos não é o oposto do desespero.
Muitas vezes teremos de enfrentar o desespero,
como tem acontecido a todas as pessoas sensíveis nas últimas décadas.
Por isso Kierkegaard e Nietzsche, Camus e Sartre
afirmam que a coragem não é a ausência do desespero,
mas a capacidade de seguir em frente, apesar do desespero".
A Coragem de Criar
Rollo May
Não temos a fé de um grão de mostarda. Por isso não movemos nada, nem montanhas. Temos medo, mas que porcaria, temos medo.
E vamos pela vida fingindo que não temos. O avião sacode e morremos de medo, não tendo. Vivemos mortos de medo, não tendo medo.
É preciso coragem para ter medo, eis do que nos fala Rollo May. Seguimos em frente, apesar do desespero. Seguimos cantando de espantar o medo.
Mas há o medo das coisas, da natureza e o medo dos homens. Do primeiro, cuida Deus. Do segundo, Deus nos livre.
Deus nos livre dos homens de quem precisamos ter medo, Deus nos livre do desespero sem causa, sem razão. Ou nos livre, ou nos acompanhe, que se necessário for, hão de precisar de Deus, havemos de precisar, quando o medo chegar.
Não temos a fé de um grão de nada e o medo bate. Olhamos aflitos as vontades dos outros, sem saber se passam ou se ficam pra nos causar temor. E precisamos seguir em frente e vamos em frente, mãos dadas, rumo ao desconhecido.
É assim que vivemos. Medo é feito comida de faminto: é ruim demais, mas a gente divide com os amigos e fica melhor. Não temos fé, eu sei, mas temos uns aos outros pra estancar o medo quando bate, quando bater.
E sentamos em roda da mesa, todos nós, e convidamos nossos medos pra sentar, prosear um pouco, contar-se um pouco, dizer errei, errei e tenho medo, não sei o que me acontece se erro.
É melhor voar em bando. Dizem que os patos só voam assim, em triângulo. O que vai à frente descansa os de trás e guia. Menos vento no rosto. Mas que baita medo deve sentir esse pato que desbrava, que diz ao vento que chegam, todos juntos, em bando, e segue abrindo espaço no nada, no vazio. Depois vem o companheiro, assume a frente e descansa o outro, exausto.
Se patos pudessem sentar em mesas, acho que se revezavam. Cada qual cuidava de tocar a frente o tempo que agüentasse e diria sempre, cansei, errei, tenho medo, me ajudem.
Bicho estranho esse homem, bicho estranho. Não são patos, são gente, mas que grande vantagem: deixam seguir o líder distante e olham de soslaio: onde é que vai? Deixam ficar o bando inteiro mais perdido que a sorte e perguntam: porque ficam?
Bicho estranho, repito. Deviam aprender com os patos. Se patos fossem, não teriam medo. Ficavam sempre juntos, se ajudando. Mas são homens, pobres homens. Têm fé como têm pecado: inutilmente.
Deviam voar em bando e ainda podem. No fundo é isso que querem, é isso que precisam, mas têm medo, é preciso confessar.
Vai que um dia o medo passa. Um dia espantamos pra longe não o medo, esse velho companheiro, mas o desespero, esse nojento. Um dia damos as mãos, chutamos o pau da barraca e vamos ser felizes, mortos de medo, mas com uma baita coragem de viver juntos a aventura da vida.
Amizade Colaboração Fé Felicidade Gestão
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9 de Abril de 2008