Sejamos Francos
Amei Drummond desde a mais tenra idade. Amava mais o Drummond cronista, que desenhava imagens que eu desejava ardorosamente conhecer, com sua descritiva que me encantava.Depois amei o Drummond poeta.
Não amei tudo no Drummond poeta. Aquela poesia me raspava a garganta. Me provocava.
E havia uma, em particular, do fulano que amava o beltrano que amava o sicrano que não amava ninguém. Não descia!
Agora ela me serve de inspiração às avessas. João mandava e-mail a Antônio, que mandava a Maria, que mandava a Paulo, que infelizmente mandava de novo a João, com cópia pra todo mundo.
Quando é spam a gente agüenta. Spam me faz bem, é terapêutico. Posso deletar um a um, em segundos. Até inventei uma brincadeira de gato e rato:
Eles enviam e-mail
e o eu matreiro mata,
quase sempre no escuro,
à queima roupa.
Às vezes não!
Às vezes, o eu, danado,
abre o coitado
antes da matança.
aposta que é spam?
abre, confirma e
bammm!
Mata o safado!
Coitado?
Coitado do eu,
sufocado
em tanto papel
sem matéria.
Melhor assim,
tornar em diversão
o que antes fora
maldição.
Mas e quando não é? Drummond me acuda. Spam de amigo é tortura que mata o conhecimento. Não sabem fazer conta.
O João manda recado a Antônio, Maria e Paulo e mais a cento e cinqüenta viventes. Todos contentes, senão todos, uma parte, responde alegre ao João e, de quebra, aos que nunca quiseram resposta. Quando eu estava na escola me ensinaram que isso se parece, infelizmente, com uma progressão geométrica. Cresce, cresce e cresce, alimentado por tanto João-sem-pensar.
E daí que eu tive que responder, outro dia, se eu fosse começar, do zerinho mesmo, um projeto de gestão de conhecimento, numa empresa, num lugar qualquer, de onde começava?
Cutuca daqui e dali, pensei, pensei e taquei o desafio.
_Eu bloqueava as entradas!
_ As entradas, estranharam, que entradas?
_ As que entopem a gente de e-mail e papel. Começava certinho daí. Pra ser didático, faz de conta que eu era importante, manda-chuva da informática de alguma companhia internacional, baixando norma no primeiro dia de minha ocupação:
“Comunicamos aos senhores colaboradores
que o servidor de correio de nossa empresa foi desativado hoje
e que, de agora em diante, as comunicações internas e externas se darão por memorandos em papel.
Os impressos necessários serão distribuídos pelas áreas,
e os mensageiros estão instruídos a atendê-los.
Cada funcionário terá direito a cinco memorandos externos e 10 internos, por mês.
Atenciosamente,
o chefe”.
Era bater e valer. Eu não durava um dia no cargo, o que não seria de todo ruim. Mas antes de sair, antes de ser demitido, certamente desceriam, diretores e presidentes. Iam querer saber, na iminência da minha degola, o que, afinal, quisesse eu com tamanha insânia. E eu respondia, calmo e pausado:
_ Senhores, não sou contra e-mails!
E continuava...
Eu os acho um grande avanço para o mundo, com a vantagem de forçar as pessoas, no pior da conta, a praticar a língua pátria. O que quero é reencontrar o essencial, e não falo de filosofia. Para aqueles que estão preocupados com os resultados de seus empreendimentos, quero reencontrar as coisas que importam para o negócio, para o objetivo. De quebra eu acho que, desse jeito, aumentamos nossa qualidade de vida, mas, vá lá, fiquemos só com negócios.
Quero que colaborem, sem se matarem de tanto spam legalizado.
_ E por que não colaboram? Talvez perguntassem...
E eu, limpando a goela, impostando a voz, diria sem demora:
_ Porque confundem informação com conhecimento. Confundem colaborar com responder. Acham que precisam ler e responder de um tudo e que, assim, trabalham juntos.
Não se dão por satisfeitos se souberem que o conhecimento existe e está ali, num lugar sabido, pra quando for necessário, pra ser compartilhado. E isso é possível, tem ferramenta, eu estou até usando agora e na tal web!
Não é preciso responder tudo.
Não é preciso saber tudo.
Só é preciso saber onde estão as coisas quando precisamos delas. Só é preciso colocar a informação correta no lugar certo, e esse lugar não é a sua caixa de entrada eletrônica, individual e solitária. Precisamos de sistemas contextuais, que guardem informações de vendas em vendas, de projetos em projetos e que saibam encontrar tudo, quando perguntados.
Isso é colaborar. Isso é ficar leve o suficiente para competir e para pensar.
E é por essa razão que me ocorre agora a melhor definição de GESTÃO DE CONHECIMENTO que possuo. Gerir conhecimento, de verdade, é desenvolver no grupo a atitude de não saber.
Se você não sabe, pergunta. Se pergunta, num lugar adequado, tem a resposta, encontra um interlocutor e pode aprimorar o que acabou de descobrir, deixando depois, no mesmo lugar, melhorado, o conhecimento pra outro perguntador.
O resto? O resto é entulho, puro entulho autoritário de gente que nunca resiste à tentação de uma respostinha numa lista de debates.
Colaboração Gestão de Conhecimento Gestão de Tempo Princípios da Empresa Essencial Simplicidade Corporativa
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6 de Setembro de 2010