Porque me calo, dileto amigo?
Belo Horizonte, 13 de fevereiro de 2002
Prezado Nelson,
Escrevo para dizer que ontem não fui a qualquer lugar que mereça registro. Não fui ontem, nem em qualquer dia desse carnaval que está querendo terminar, contra todos os esforços da tv.
Estou e estive como Aristides, nome que acabo de escolher prá um sapo que adotou minha mãe em seu sítio. Vive ali, no cano d'água da chuva. Põe para fora o nariz só o suficiente para uma refeição rápida e se fazer notar aos que passam. Nada mais. Cumpre registrar que se encontra gordo e bem disposto.
Nada de novo e porquê me calo? Nenhuma descoberta, nenhum pensamento que mereça exploração?
Por quê me calo, dileto amigo?
Fez-me calar um feitiço do Rubem Alves, a quem sei que também visitas:
"O que é entendido nunca é repetido."
Está ai o encantamento. Estou amuado, pensando em Lá, que não entendi. Andei falando com outros amigos a respeito. Estou me locupletando de Lá, enlaçado feito a grande serpente mágica que abocanha o próprio rabo.
É por ai que estou. Acho que comi muito e as palavras não me descem. Estão paradas como prato de véspera. Estacionaram. É efeito colateral das lições de feitiçaria que me meti a ler.
Vou tentando compreender. O João Nogueira me saiu com essa:
"Vou me mudar da tristeza
e morar na beleza
do seu carnaval."
Está tocando agora esse vinil ressurreto. Fala da Portela, mas para mim pouco importa, sendo pura poesia e sendo a hora do pôr-do-sol, quando meus indigestos pensamentos são capazes de voar.
E voei por sobre a fogueira e o caldeirão fumegante do Rubem. Quase destrui "Onde é Lá?" É que ele anunciou na receita do feitiço:
"Deus é um mistério.
O simples dizer de seu nome é Profanação."
Juntei tudo, deu nisso. Estou amuado, repito, estou olhando, do alto onde moro, os pensamentos correrem com as nuvens e o brilho estelar do início da noite nada ilumina, além de minhas dúvidas.
Ah! Eu não contei: convidaram-me para ser professor, veja que coisa, logo eu que já fui, que tanto queria, Logo eu que registrei numa planilha eletrônica a data em que devia acontecer. Pois é, veio antes, e esse pensamento também se misturou na confusão crepuscular.
Como é que vou ser professor sem Dizer o nome de Deus? Estou condenado? Recusei então, pouco importa o que eu devesse ensinar.
Tudo uma grande confusão. Onde entra o tal samba do Nogueira é que eu estou tentando é mudança, feita de coração, nada de caminhão, que isso não presta! Preciso morar na beleza de qualquer coisa.
Procuro nos classificados.
Quero mesmo é voltar prá casa mas me mudei muitas vezes na vida. Não sei direito qual delas. Uma deve fazer diferença, uma deve despertar a saudade que canta a música da felicidade num coração aflito. É chegar, finalmente, no lugar de onde parti.
Enquanto caminho faço minha quaresma. Minha companheira me disse hoje prá deixar de fazer algo que goste muito por quarenta dias, uma espécie de sacrifício, um jejum de mais valia. Estranhei ela conhecer disso, mas bobagem: ela é feiticeira também, lança feitiços no ar e vai me empurrando.
Vou fazer Jejum de Deus, então. Se a fé me ajudava, eu fazia quarenta dias de jejum do seu nome, mês e tanto perdido no mundo, no meio do nada, só caminhando no silêncio. Acho que a falta faz a saudade e a saudade deve perdoar o pecador quando agarrar seu prato de comida, quando rezar desesperado depois de tanto tempo.
Eu não comia qualquer coisa de pequeno, nem tanto assim selecionava, mas havia umas coisinhas que não podiam com meu estômago. Minha mãe dizia:
_ Deixa você passar fome prá ver!
Deve ser assim. Eu, com fome, acho que como banana, supremo sacrifício. Eu, jejuado de Deus, acho que não vou querer entender nem ele nem o lugar dele nem as coisas dele. Acho que vou só rezar num cantinho, me dando por satisfeito de repetir mil vezes seu nome depois de tanta falta.
Ai acho que posso ser professor, titular de tudo e de nada. Porque terei esquecido e o feitiço do Rubem terá se cumprido.
Esqueci de contar, Nelson: de repente me bateu um grande orgulho de ter perguntado onde é Lá? Se a gente se dá conta que é uma espécie de inútil bem humorado nessa vida, as coisas vão ficando rosas.
A pergunta que fiz era parte da resposta, você sabia o tempo todo. Era perguntar prá ver no que dava. De maneiras que, se publicar essa coiseira toda o cara pode comprar, ler, ler e termina por ai. Nada de entender. É só ficar repetindo prá os outros a pergunta e me dou por satisfeito.
Dizem que se todos os chineses pulam de uma só vez mudam o eixo da terra. Pois é: quem sabe se todo mundo pergunta junto, em uníssono, onde é Lá, Deus responde?
De novo bobagem. Ouvindo a multidão alvoroçada ele gritava junto com a gente, só prá fazer valer a pena a pergunta.
E nós aqui, joelho em terra: nada de entender, nada de entender, nada de entender.
Acho que fé deve ser isso. Acho que iluminação deve ser isso. Acho que é por ai o caminho de Lá.
PS: Será que aceitam um professor que só faz perguntas?
Prezado Nelson,
Escrevo para dizer que ontem não fui a qualquer lugar que mereça registro. Não fui ontem, nem em qualquer dia desse carnaval que está querendo terminar, contra todos os esforços da tv.
Estou e estive como Aristides, nome que acabo de escolher prá um sapo que adotou minha mãe em seu sítio. Vive ali, no cano d'água da chuva. Põe para fora o nariz só o suficiente para uma refeição rápida e se fazer notar aos que passam. Nada mais. Cumpre registrar que se encontra gordo e bem disposto.
Nada de novo e porquê me calo? Nenhuma descoberta, nenhum pensamento que mereça exploração?
Por quê me calo, dileto amigo?
Fez-me calar um feitiço do Rubem Alves, a quem sei que também visitas:
"O que é entendido nunca é repetido."
Está ai o encantamento. Estou amuado, pensando em Lá, que não entendi. Andei falando com outros amigos a respeito. Estou me locupletando de Lá, enlaçado feito a grande serpente mágica que abocanha o próprio rabo.
É por ai que estou. Acho que comi muito e as palavras não me descem. Estão paradas como prato de véspera. Estacionaram. É efeito colateral das lições de feitiçaria que me meti a ler.
Vou tentando compreender. O João Nogueira me saiu com essa:
"Vou me mudar da tristeza
e morar na beleza
do seu carnaval."
Está tocando agora esse vinil ressurreto. Fala da Portela, mas para mim pouco importa, sendo pura poesia e sendo a hora do pôr-do-sol, quando meus indigestos pensamentos são capazes de voar.
E voei por sobre a fogueira e o caldeirão fumegante do Rubem. Quase destrui "Onde é Lá?" É que ele anunciou na receita do feitiço:
"Deus é um mistério.
O simples dizer de seu nome é Profanação."
Juntei tudo, deu nisso. Estou amuado, repito, estou olhando, do alto onde moro, os pensamentos correrem com as nuvens e o brilho estelar do início da noite nada ilumina, além de minhas dúvidas.
Ah! Eu não contei: convidaram-me para ser professor, veja que coisa, logo eu que já fui, que tanto queria, Logo eu que registrei numa planilha eletrônica a data em que devia acontecer. Pois é, veio antes, e esse pensamento também se misturou na confusão crepuscular.
Como é que vou ser professor sem Dizer o nome de Deus? Estou condenado? Recusei então, pouco importa o que eu devesse ensinar.
Tudo uma grande confusão. Onde entra o tal samba do Nogueira é que eu estou tentando é mudança, feita de coração, nada de caminhão, que isso não presta! Preciso morar na beleza de qualquer coisa.
Procuro nos classificados.
Quero mesmo é voltar prá casa mas me mudei muitas vezes na vida. Não sei direito qual delas. Uma deve fazer diferença, uma deve despertar a saudade que canta a música da felicidade num coração aflito. É chegar, finalmente, no lugar de onde parti.
Enquanto caminho faço minha quaresma. Minha companheira me disse hoje prá deixar de fazer algo que goste muito por quarenta dias, uma espécie de sacrifício, um jejum de mais valia. Estranhei ela conhecer disso, mas bobagem: ela é feiticeira também, lança feitiços no ar e vai me empurrando.
Vou fazer Jejum de Deus, então. Se a fé me ajudava, eu fazia quarenta dias de jejum do seu nome, mês e tanto perdido no mundo, no meio do nada, só caminhando no silêncio. Acho que a falta faz a saudade e a saudade deve perdoar o pecador quando agarrar seu prato de comida, quando rezar desesperado depois de tanto tempo.
Eu não comia qualquer coisa de pequeno, nem tanto assim selecionava, mas havia umas coisinhas que não podiam com meu estômago. Minha mãe dizia:
_ Deixa você passar fome prá ver!
Deve ser assim. Eu, com fome, acho que como banana, supremo sacrifício. Eu, jejuado de Deus, acho que não vou querer entender nem ele nem o lugar dele nem as coisas dele. Acho que vou só rezar num cantinho, me dando por satisfeito de repetir mil vezes seu nome depois de tanta falta.
Ai acho que posso ser professor, titular de tudo e de nada. Porque terei esquecido e o feitiço do Rubem terá se cumprido.
Esqueci de contar, Nelson: de repente me bateu um grande orgulho de ter perguntado onde é Lá? Se a gente se dá conta que é uma espécie de inútil bem humorado nessa vida, as coisas vão ficando rosas.
A pergunta que fiz era parte da resposta, você sabia o tempo todo. Era perguntar prá ver no que dava. De maneiras que, se publicar essa coiseira toda o cara pode comprar, ler, ler e termina por ai. Nada de entender. É só ficar repetindo prá os outros a pergunta e me dou por satisfeito.
Dizem que se todos os chineses pulam de uma só vez mudam o eixo da terra. Pois é: quem sabe se todo mundo pergunta junto, em uníssono, onde é Lá, Deus responde?
De novo bobagem. Ouvindo a multidão alvoroçada ele gritava junto com a gente, só prá fazer valer a pena a pergunta.
E nós aqui, joelho em terra: nada de entender, nada de entender, nada de entender.
Acho que fé deve ser isso. Acho que iluminação deve ser isso. Acho que é por ai o caminho de Lá.
PS: Será que aceitam um professor que só faz perguntas?
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20 de Maio de 2009