O Caso do Presente
O Caso do PresenteDepois da benção da meia noite, que já não era da meia-noite fazia tempo, desde que as redondezas ficaram perigosas, seu Arquimedes saiu da igreja junto com dona Joana e a pequena neta Carolina. Desceram as escadas, depois a rampa e foram dar no largo de uma praça pequena e bem cuidada, para onde convergiam ruas muito íngremes e escorregadias.
Arquimedes, cuidadoso, vestido no seu tergal de Natal, subiu em direção ao carro, equilibrando Dona Joana nos saltos finos e a neta na ansiedade da festa e dos presentes.
Carro enviesado, descida forte, as portas teimavam, uma em ficar aberta, a outra, fechada.
Achegam-se dois pequenos, uma maior que o outro, um mais falador que o outro.
- Ô moço, eu ajudo!
- Precisa não, menino.
- Mas eu ajudo, é difícil abrir!
- Ta bom, ta bom! Então segura a porta dela.
Segurou. Entrados no carro, a mãozinha se estende pela janela de Arquimedes:
- E aí? O senhor não vai dar uma caixinha de Natal pra gente?
- Eu não tenho moeda, meu filho.
- Não tô falando de moeda. Tô precisando de mais...
- Mais??? Esse mundo ta virado, Joana!
- É, moço. O meu irmão ali ta querendo comprar um brinquedo de Natal!
Arquimedes olha pelo vidro a ponta da cabeça de Pedro, pequerrucho, gordo de nariz não suado e cabelo arrepiado do despenteio.
- Sei... Você acha então que eu vou dar um presentão de Natal pra vocês, assim? Meu filho, hoje é Natal, mas eu não sou Papai Noel! Toma, eu achei uma moeda.
- O Sr. Já ouviu falar da Compadecida?
- Compadecida?
Seu Arquimedes fica pensativo. Imagina logo as artimanhas de seu pequeno inquisidor e se prepara para arrancar sem mais conversa, mas o carro desliza no chão molhado. D. Joana, atenta, cochicha:
- Ele ta falando do Ariano Suassuna, passou outro dia na TV. O Auto da Compadecida, lembra?
- Ahhh !
A pequena Carolina, no banco de trás, ouve a conversa atentamente.
Arquimedes retruca:
- Você ta falando da compadecida, Nossa Senhora?
- Isso mesmo. A Profa. Ensinou que no final do filme o Chicó encontrou um mendigo e não viu que era o Jesus...
- Ah sei. E o que é que tem isso a ver com o seu presente de Natal?
- Tem que... Meu nome é Jesus!!!
- Jesus? Seu Arquimedes esfria.
Carolina logo puxa seu braço e pergunta:
- Vô, vô, esse é aquele menino que eles falaram lá dentro da missa?
- Fica quieta menina, deixa seu avô conversar.
Arquimedes olha fixamente para o pequeno Jesus:
- Como é que eu vou saber que seu nome é Jesus?
Bastou falar isso e um plástico muito encardido pula do bolso, com uma identidade novinha em folha dentro. Lê-se: Jesus Maria da Silva.
Seu Arquimedes gela de novo.
- Pois é, eu disse pra o senhor, sabe lá se eu sou o Jesus de verdade?
Pedro dispara em voltas no carro, como que desorientado de nervoso. Seu Arquimedes parece ceder:
- E de quanto nós estamos falando, Jesus?
- Bom. Essa hora da noite, já são sete horas, eu só consigo comprar presente ali na farmácia, mas tem um monte de coisas legais que eu posso comprar para o meu irmão, eu tava pensando, assim, uns cem reais...
- O quê???? CEM REAIS?
- Vô, vô. Responde vô! Esse é aquele Jesus lá da missa?
- Fica quieta menina!
- Ooolha, o senhor não sabe se eu sou aquele Jesus.
Secretamente o menino se ri da situação de Arquimedes e de seu plano tão bem tramado.
Arquimedes olha para Joana, para a neta, e concorda:
- Ta bom, ta bom. Hoje é Natal! Tira duas notas de cinqüenta reais e entrega, estalando de novas.
Jesus agradece:
- Peraí. Peraí, eu vou ajudar o senhor a manobrar. É só tirar as pedras das rodas...
Desfaz a armadilha e Arquimedes segue, entre enganado e resignado.
Jesus toma o irmão pela mão e vai descendo a rua.
- E aí Jesus, deu certo né?
- Eu não te falei que dava, que não falhava?
- Ah, mas você não tem medo Jesus?
- Medo de quê?
- Da gente ser castigado! Você sabe o que a professora falou!
- Tem nada não, Pedro, você não lembra da compadecida? Qualquer coisa ela salva a gente!
- Ah, então ta!
Entram na farmácia. Jesus espera o irmão escolher o brinquedo e paga.
O caixa estranha a nota, estalando de nova e já suja de sangue.
Enquanto sai, Jesus vai pensando: “Encontrei mais um!”
Amizade Educação Família Fé Felicidade
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20 de Novembro de 2007