Nossos Limites
Nossos Limites"Nem de graça comemos o pão de homem algum,
mas com trabalho e fadiga,
trabalhando noite e dia,
para não sermos pesados a nenhum de vós".
Carta de São Paulo aos Tessalonicenses 3,8
Nossos limites são assim, coisas de homens. Não sabemos quando chegam e se chegam, entre lágrimas, nos surpreendem. São coisas de homens, é isso que são!
Chegou o limite de um amigo e me procura. Está cansado e, talvez, supõe, bastem uns dias de tranqüilo descanso para encarar de novo a vida, refeito. É o que diz, não faço fé.
Quem sabe uma estância, com águas sulfurosas e calmo pensar, quem sabe. É o que diz. Possa ser também ficar em casa, os filhos na escola e nada para fazer, nenhum pensamento, nem calmo, passe por sua cabeça.
Agora está atordoado.
Quer entender como chegou aqui. Trata-se, não sabemos, de grave amnésia ou de grave esquecimento. Antes que decida aonde ir, quer ficar a sós com seu limite. Recusa-se a ler jornais. Isso, já resolveu, agrava seu cansaço. Não quer notícias do front, de nenhum front, de nenhuma guerra, de nenhum sofrimento. Quer sossego, como o Tim Maia.
Decidiu também refazer uns planos, perder uns quilos e não jogar mais na loteria. Aos domingos cortará o fantástico e evitará a qualquer custo mencionar que seu time tenha perdido no futebol.
Está no limite de suas forças e há de se permitir uns mimos.
Rompeu radical e unilateralmente com seus bancos. Não quer mais contas, melhor, não quer fazer contas, ainda mais que seu cheque especial chegou ao limite, como ele.
Ficará sócio de um clube e entrará para a ginástica. Comerá somente pão integral e, lá pelo meio das férias ou da licença médica, ainda não resolveu, fará retiro espiritual.
A propósito, em quinze minutos ligará para o médico e está se decidindo se reclamará de mais ou menos dores, mais ou menos temores.
Pensa em mudar de casa, algo mais intimista, se conseguir quitar o BNH e conseguir um empréstimo direto com a construtora. Andou vendo móveis mais neutros e pensa em tons pastéis para as paredes, como recomendam umas revistas da moda para os preocupados com qualidade de vida.
Considera, com seriedade, rever as coisas mais de acordo com o feng shui.
Ficará sócio de outro clube, um de leitura. Hão de recomendar-lhe somente bons livros que o ajudarão a sair da crise.
Fará vestibular e mudará sua vida. Descansado, há de reunir forças para o intento e fazer finalmente o que gosta. Nada de patrões, daqui a uns anos.
Caminhará dia sim, dia não e reduzirá drasticamente o colesterol. Nenhuma carne gordurosa e uma pitada de ômega três não lhe farão mal.
E ouvirá mais música. Convidará a esposa para mais passeios e brincará com os filhos mais vezes.
Pronto! Está feita a lista e lhe parece razoável. Sorve um longo gole na tulipa suada de chope e me encara pensativo. Uma lágrima escorre no canto marcado de seu olho esquerdo, mas mantém silêncio mortal por minutos sem fim.
Planos são assim, cheios de limites, fartos de expectativa. Falta-lhes a vida. De nada servem sem a firme decisão da felicidade que plenifica a vida.
Levantamos e saímos pela calçada como há vinte e cinco anos, chutando as latas, sem compromisso qualquer. Quem sabe amanhã nossos limites não cheguem, quem sabe voltemos a ser crianças e brinquemos com o mundo, sempre descobrindo, quem sabe, que é doce viver cada dia, só um pouco, só um pouquinho melhor.
Amizade Colaboração Família Fé Felicidade Gestão de Tempo Saúde
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2 de Março de 2008