Fabricando remos
Ele caminhou por cidades e cidades e o leitor tenha a certeza de que ele vai encontrar o sábio, velho, morando numa choupana perto de um rio. Esta história é mais manjada que andar pra frente.
Vai daí ele pergunta ao sábio aquela coisa de “como é que eu alcanço a iluminação” e o sábio, que já devia estar de saco cheio de tanto ouvir esta pergunta, foi ficando sacana e, desta vez, dentre as tantas em que exerceu sarcasticamente sua sabedoria, mandou o jovem fabricar remos... Com um canivete.
_ Mas, remos? Disse o jovem, puto da vida porque nunca tinha usado sequer um canivete para fazer um espeto, que dirá um remo.
_ É isso aí, meu amigo: remos!
_ E o senhor pode me explicar como é que se faz isso?
_ Não!
_ Não? E como é que o senhor espera que eu faça os remos?
_ Aí é que está. Eu não espero. Eu não preciso de remos. É você que disse que tinha que alcançar a iluminação e hoje eu acordei com vontade de que a iluminação fosse fazer remos. Pon-to-fi-nal!
O jovem ficou desacoçoado, mas foi, é claro que foi, senão nossa história não acaba, para a beira do rio onde o sábio já possuía uma outra e providencial cabana, afastada um pouco da sua. Olhou para cima e viu um galho mais robusto numa árvore. Subiu, com muita dificuldade, cortou o galho e, com o canivete começou a moldar o remo.
Lá pelas tantas o velho chegou e sentou-se numa pedra. Olhava para tudo, para a cabana, para o fogo, para as roupas do aprendiz e pouco olhava o remo.
_ Pronto, tá pronto seu remo.
O velho meio que acordou de um sono fingido e olhou o remo com considerável desinteresse.
_ Que merda de remo! Faz outro.
E foi saindo.
O aprendiz foi tomado de uma ira quase incontrolável. Como é que alguém chamava o trabalho de um dia inteiro de merda.
Foi deitar e acordou disposto a fazer o melhor remo do mundo.
Mas nada adiantava. Todas as tardes o velho chegava, sentava-se perto do fogo, pegava o bule de chá e enchia uma cumbuca com ele, sorvendo lentamente e esperando a hora de condenar o próximo remo.
Passaram-se dois longos anos e como nosso sábio já estava perto da morte, aconteceu que um dia ele não veio.
O jovem terminou o remo daquele dia e, como esperasse sem que seu mestre viesse, correu até sua casa. Encontrou-o no leito de morte, quase sem forças e disse, um tanto sem jeito:
_Mestre, o senhor está morrendo e eu não alcancei a iluminação. Fiz hoje um remo do qual me orgulhei muito, o melhor que já fiz. Tenho a esperança de que o senhor o aprove.
_Traga-o, meu filho, e eu verei o que penso, mas traga também um bule do chá que você faz todos os dias.
O jovem saiu em disparada para buscar o remo e o chá antes que seu mestre partisse. Voltou, sentou-se a seu lado e entregou o chá. O velho o sorveu mais lentamente que todas as outras vezes. Seu olhar parecia perdido em algum lugar encantado e o cheiro do chá dava ares suaves ao ambiente.
O jovem não resistiu e entregou o último remo.
Com esforço o velho o tomou nas mãos. Examinou-o com um inesperado cuidado, cada entalhe, cada forma. Deu um grande suspiro e emitiu seu veredicto:
_ Continua uma merda!
Um instante de silêncio se seguiu e o velho continuou:
_ Mas o seu chá, o seu chá eu nunca havia tomado igual. Qualquer um poderia encontrar a iluminação se soubesse fazer um chá como esse. Pena que você só aprendeu a fazer remos.
E morreu.
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27 de Abril de 2009