Encontrando July
Muitos me perguntam de onde nasceu o termo A EMPRESA ESSENCIAL. O conceito nasceu em 20 anos de empresa, mas o termo em um único dia, quando encontrei nossa amiga JULY MASCARENHAS, junto com meus sócios. Foi nesse dia que escrevi:Minha prezada July,
Acho que, quando muito, eu sou um cadarço, um cadarço serve para atar as coisas, mas sejamos francos, e lá meio desajeitado.
Eu amarro destinos, não mais que isso. Quando penso na minha vida, vejo quantas pessoas se conheceram através desse pobre esfarrapado cadarço, que chega aos quarenta e sete anos de vida com a missão, decretada por você, de se curar.
Estou me lavando, acho que é isso que fazem com cadarços quando envelhecem, mas ainda servem: nós os lavamos.
A grande pergunta, amiga July, é do que eu quero me curar, de que dores, de que medos, do tanto que eu possa ser mau.
Então, quando nossos caminhos se cruzaram e eu fiquei surpreso com o tanto que me disse e atei seu destino ao destino da Dri, do Geraldo, do Kenio, do Luiz, então devia ser o começo de hora de parar.
Falamos muito, tanto que, com o tempo, as palavras foram perdendo o sentido e ganhando espírito, força, espaço, viraram silêncio.
Foi então que, pouco de chegado á fazenda São Sebastião, onde nos reencontramos os seis, deste-me o presente dos deuses, vagarosa e cuidadosamente embrulhado. O pacote estava ali, vazio e encantador: silêncio... In natura!
Saí andando, primeiro terapeuticamente, os trinta minutos regulamentares que me impus para a cura.
Depois aflito.
Por último, perdi o sentido do tempo. Juro que andaria até que o mundo se acabasse, até o mar, até morrer em paz, certo de ter visto Deus uma única vez na vida, mas de repente a resposta à sua pergunta veio-me como um lampejo, em forma de um título de livro, título novo para um livro quase pronto
A Empresa essencial
Uma apologia do simples
Eis a resposta que, para tal, exige que se registre a pergunta que você fizera:
“O que eu desejo da vida, da empresa?”
Parece complicado?
Eu desejo o essencial e vou tentar explicar.
Era uma vez um menino que lia, lia e lia, ficou velho e continuou lendo...
Vamos fazer diferente: vai ser um poema. Vou começar de novo.
Era uma vez
Um menino que lia
Lia e lia
Ficou velho
E seguiu lendo.
Lia tanto
Que nem mais entendia.
Então um dia,
Enquanto lia,
O menino ardeu
Em febre
E, porque ardia,
Delirou,
E, já que delirava,
Nada mais o impedia.
Estava louco,
De uma loucura temporária
E quem o ouvia,
Primeiro perdoava,
_Está febril o menino,
Melhor banha-lo em águas
Que cede o quente
E retorna ao centro.
Mas nada!
Dia e noite
Passou-se o tempo
E da febre,
Ninguém mais dava tento
E o menino perguntava
De tudo
E a todo ser vivente
Porque?
Foi ficando velho
E, já que ficava,
Sentia mais passar o tempo
Para manter a febre.
Achou de queimar
Os moveis,
Cadeiras, papeis,
Tudo o que não dissesse,
Não fizesse sentido de
Porquê.
Despiu-se aos poucos,
Mas estranhamente,
Achava que nem tudo
Queimaria.
Haveria de sobrarem coisas,
Que fizessem sentido
E a isso chamou de
Essencial.
Foi ficando arredio,
Até que um dia,
Ainda febril,
Chorou.
Era um choro diferente,
Daqueles que a gente
Nem entende.
Chorou meses e quando,
Súbito,
Parou,
Todos estranharam.
Havia passado a febre
Estava calmo
Inda que embora morto
De medo.
Havia chegado a hora.
Ele respirou e seguiu,
Certo da coragem agora
De que devia ter.
Olhou os seus com carinho
E disse as seguintes palavras:
Creio no essencial
E o essencial não para,
Muda todos os dias
Para tornar-se ainda mais,
A essência de si mesmo.
O essencial, meus amigos,
Tem que ser Deus.
Desculpe-me July, ter-me, de súbito, tornado poeta. Não explicarei nada do que escrevi, já que só com a poesia se entende a poesia.
Mas posso falar da empresa.
Minha angústia, July, é que as pessoas não percebam o essencial que é uma empresa leve. E então entra a escola, tudo que nos ensinaram como essencial.Em quanta confusão já me meti por isso, quanta tralha!
A empresa que desejo é a expressão da busca do essencial. Nela, tudo o que não resistisse à pergunta fatal, ao porquê, deveria ser descartado.
Estranho eu me lembrar agora de dizer que, nesta empresa cuidamos uns dos outros. Estranho porque este cuidado para se sobreviver na minha empresa, precisaria ser essencial. E é?
Senão, vejamos: a filosofia nos ensina que o homem é um ser social, o que nos diferencia do animal é um senso nato, uma sombra de Deus em nossas existências, que nos torna capazes de sacrifícios pelo outro, muitas vezes pelo outro desconhecido.
Se for certo que assim o somos, cuidar do outro faz parte de nosso sentido enquanto humanos, filhos dessa chama a que chamamos Deus.
Isso nos conduz ao sentido de conseqüência porque nossa existência perderá sentido toda vez que agirmos, voluntariamente ou não, em detrimento do outro.
E aí July, a coisa se complica, pois que o perdão se impõe para todos nós, puros de propósito, como diria Matos Guerra:
“Pequei Senhor
Mas não porque hei pecado
De vossa alta clemência
Me despido.”
Ò Cristo, quantas vezes e por quais pecados deverei eu perdoar meu irmão, setenta vezes sete?
Eu não tenho a resposta, July, e pior que isso peco eu mesmo tão incontáveis vezes. Faço como o alienista de Machado de Assis ou, pior que ele, passo a implorar que me ponham a ferros para que não mais peque contra o outro.
Mas há sórdida estratégia aqui. A ferros, preso como animal, também não pecarei contra mim e poderei passar a vida recluso e feliz.
Feliz?
Não, July! Já aprendi que assim não será, que a felicidade do essencial não estará no tentador isolamento da loucura ou de um mosteiro para o resto dos meus dias.
Será preciso correr riscos, o risco principal de estar com o outro e entregar-se em sacrifício, não por ele, mas com ele.
Que Deus e o Cristo me perdoem por pensar assim ( não pedirei perdão aos padres e pastores, mas os sacrifícios que valem a pena são os que fazemos juntos, com comunhão de propósito. O resto é puro exibicionismo para um ser que inventamos, que se finge e se veste Deus.
Talvez ele seja o demônio que nos convida a pular do templo.
Não quero pular. Não, não quero ceder às tentações. Quero, se preciso for, inventar um meio de tornar a empresa mais simples, quero acabar com os pecados, não com os pecadores.
Todo o sofrimento talvez resida no fato de que amemos o pecado, amar não, cremos que não viveremos sem ele.
De novo explico.
Porque torturar psicólogos, diretores, tanta gente com planos de descrição de cargos. Para que servem! Para criar cerquinhas em torno das pessoas, dizendo quem devem ser?
E gavetas? E emails? E Crachás? E prédios? E monitores pendurados na recepção, tocando músicas previsíveis?
Amei cada um destes pecados porque, como drogas, por um tempo me deram a sensação de estar-fazendo-a-coisa-certa.
Mas não amo mais, não são a essência.
Meu desamor por eles é repentino e isso me leva a outro problema.
Já não amo mais
O que amava.
O sonho que me queimava
As entranhas
Morreu
Para dar lugar
A outro,
Mais próximo da felicidade,
Mais simples,
Mais essencial.
E todos me olhavam atônitos como se eu movesse de prado a montanha encantada para que nunca a encontrassem.
Saibam todos que eu não jogo dados para decidir meus amores e crenças!
Minha profissão é a busca do essencial e para quem disso se ocupa só a estrada faz sentido, não há pouso.
Admiro os que transformaram seus projetos, suas empresas, em montanhas de dinheiro, ou pelo menos admiro os que o fizeram com convicção.
Meu projeto, porém, quer ser um legado diferente, provar que seja possível trabalhar e gozar de prazer, ser capaz de responder com simplicidade por nossos encargos, como um mantra:
Mas simples,
Mais simples,
Mais simples.
É isso que me importa, mas, novidade: eu não sei direito como fazer, pelo menos não hoje.
Sei que estou machucando as pessoas, é só o que sei, mas desistir seria já morrer, antes de ver, face a face o bom Deus.
Porque é assim que imagino encontra-lo.
Sairei para o trabalho ou nem isso. Lá, só tratarei, eu e meus companheiros, do essencial. Nada será muito porque teremos descoberto o segredo de se fazer as coisas simples.
Haverá uma mesa despojada e uma pobre cadeira, contrastando com um computador sem arquivos, porque tudo será de todos.
E haverá livros que eu terei tempo de ler e cadernos para escrever poemas que nem precisarão fazer sentido.
E quando eu puser meus olhos em Deus não sei se uma sarça ardente ou um velhinho de barbas brancas, eu sorrirei para perguntar:
- Então Sr. Deus, eu morri?
E ele gargalhará para responder:
_Não, Roberto, ainda não!
Um grande abraço do amigo Roberto
09/02/2008
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14 de Março de 2009