A necessidade de criar

Relendo Rollo May, a Coragem de Criar, chamou-me a atenção a data de sua primeira edição. Publicou-o em setenta e cinco e já lá se vão trinta anos de nossas vidas afogadas em informação.

Sim, é disso que teimo em falar! Tentei, ao longo de meia década, erradicar de minha vida alguns dos efeitos mais nocivos desta explosão, de e-mails fora de controle a pilhas de papel, passando por uma necessidade inata de selecionar aquilo que, na arte, na música, no teatro e especialmente na televisão, preenchesse de sentido os meus sentidos.

Devo confessar que tenho conseguido resultados animadores e digo confessar por não fazê-lo de bom grado. Faço-o, antes, apreensivo, temeroso de não ser compreendido.

E como temo?

Temo, em primeiro lugar, não estar sendo competente em transmitir a meus pares os benefícios de minhas descobertas. Falo, falo e falo, e parecem não entender. Julgam-me apenas um insano destruidor de gavetas, pouco mais que isso.

Temo, ainda e de resto, que não tenha, eu mesmo, compreendido a forma de lidar com a essência do que sobra, nesse mar de correntes de bits. E o que sobra?

Toca o telefone. Um cliente tem um problema. Vá lá que o problema dele pode ser daquela classe que nosso filtro de informação classificaria como besta e arcaico, algo que não merecesse solução. Vivemos num mundo em que tudo é potencialmente incômodo.

Mas, Senhor May, temos que ser criativos!

Vivemos disso, de atender clientes e leitores, e é preciso não assustar a platéia, ao mesmo tempo em que se transforma em estratégia de venda nossas convicções mais profundas sobre a matéria que estiver em questão.

A minha matéria tem sido educação, via de regra. Toca o tal telefone e um cliente me convida a expor minhas teses e eu, ouvindo suas necessidades, preciso fazer com que perceba, ainda que ao longe, um cheiro de solução na minha visão de seu problema.

Rezo:






Oh! Senhor,

Quebrai a banca

Da concorrência

E deixai-me só,

Nesse mar de clientela,

Com leitores sempre,

Por sua graça,

satisfeitos,

Amém.







Um mundo perfeito! O que quer que eu diga é música. Todos clamam por soluções, nesse caso, as minhas soluções.

Mas não é assim! Nunca foi, de fato. Somos nós, de um lado, selecionando o sentido do mundo para que represente algo que nos interesse. Filtramos e-mails, jornais, papéis, revistas. Puro risco de selecionar errado. Puro risco de desatualização, de perda de oportunidade. De não estar sintonizado com a demanda de mercado.

Do outro lado o cliente, com suas vicissitudes, cliente do médico, do terapeuta, do barbeiro, do mecânico, cliente de qualquer um e cliente do mundo onde tudo muda e também muda o cliente: Paga hoje 500 por um serviço em que, amanhã, pagará 10 ou nada. Tanta idéia boa, tanto projeto brilhante triturado, de um dia para o outro, enquanto fingimos não ver ou quando filtramos errado em nossos ouvidos.

No meio de tudo isso, a necessidade de criar é  o que nos diferencia. Não sei, Senhor May, o que vem antes, se coragem ou necessidade. Isso, por se só, seria tema para longos debates. O que eu sei é o que nos diferencia dos outros. A capacidade de ouvir e expressar nossa opinião sobre o mundo de uma forma que faz e altera o sentido. Qualquer vendedor tem mais facilidade para responder à pergunta “o que o cliente quer comprar” do que a uma outra, muito mais importante, “qual o problema do meu cliente”. Na primeira, não há coragem nem necessidade. Somente a constatação do que se deseja. Na segunda, criamos, interpretamos, adicionamos ao que nos é dito toda a nossa carga de experiência para definir nossa percepção do problema. É o momento da criação!

Mas muitos que vendem não têm tempo para ouvir e nem sequer desejam ouvir. Estão muito envolvidos com metas, com relatórios, com tabelas que precisam preencher corretamente. Fazem-no por diletantismo e não pela convicção de compartilhar conhecimento sobre a venda.

Não criam!

E muitos que projetam casas, programas de computadores, enfim, toda sorte de traquitana, muitos também não criam. São funcionalistas. Andam com as manadas, gestores de semanários de tecnologia, de onde, sem filtro quase nenhum, retiram suas convicções.

Por isso blasfemam sempre que outro, o tal concorrente, apresenta solução melhor, mais barata, ou se dispõe a fazer mais por menos. Encantar mais? Dizem que não vale a pena, que aparecerá outro para ser atendido ao preço que reputam justo. Preferem isso a criar novas soluções.

Se não têm coragem de criar, não percebem, tão pouco, a necessidade. Acham que suas fórmulas prontas deveriam ser suficientes.

Engraçado... Não posso (ainda) provar estatisticamente, mas quase posso descrever com precisão o seu perfil:

Ÿ        Suas mesas vivem cheias de papéis;
Ÿ        Tem mais coisas a fazer que sua capacidade permite, num dia;
Ÿ        Vivem cheios de e-mails sem resposta ou mal respondidos;
Ÿ        Possuem pastas bem classificadas, nos e-mails, de assuntos não resolvidos;
Ÿ        O melhor tempo para resolverem uma questão é amanhã;
Ÿ        Não conseguem ter idéias muito boas para seus clientes mas encontram muitos defeitos nas idéias dos outros;
Ÿ        Esperam que alguém lhes diga o que fazer;
Ÿ        Não importa se lêem, se estudam, se fazem MBA, não importa. Vão sempre preferir as soluções prontas nos livros ou manuais às suas próprias convicções;
Ÿ        Preventivamente dizem que qualquer projeto é inviável ou custará muitas, muitas horas para ficar pronto (é infalível: se você contestar, pedem para que você prove que pode ser feito e faça, o que resolve o problema deles de qualquer maneira);
Ÿ        Para eles a vida não pode ser simplificada. Seria um tédio viver com menos problemas;
Ÿ        Não criam alternativas. Quando muito, são capazes de verificar todos os riscos das alternativas alheias;
Ÿ        Vivem em manadas;
Ÿ        São tristes. Têm uma vida triste e um emprego triste. Filhos tristes, maridos e esposas irremediavelmente tristes!


Falta-me agora sua foto, uma muito bem tirada, que eu possa colocar na parede de minha sala e ficar olhando, olhando, toda vez que me sentir tocado a correr feito doido no meio do nada, junto com gente que também não sabe para onde está indo. Nessa hora, carece que eu fique repetindo:

Não sou eu!

Não sou eu!

Não sou eu!

 Colaboração  Educação  Felicidade  Gestão  Saúde  Simplicidade Corporativa  0 Comentário(s) 22 de Fevereiro de 2010



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