A Lojinha
O nome dele era Sô Vicente. Tinha uma lojinha ali na rua Indiana, no jardim América, acho que ainda tem. Tudo ali combinava.Começa que o tratamento Sô é privativo, dentre algumas poucas castas sociais, dos donos de lojinhas. Ninguém diz: O Sô fulano, dono do supermercado. Nessa condição, passa-se imediatamente e, no mínimo, a Senhor Fulano.
Então era esse o nome dele e, lojinha, é bom que se diga, não é uma designação para qualquer estabelecimento. Lojinhas tem uma espécie de “modus operandi” próprio e parecem até que são uma franquia de tanto que são iguais: tudo amontoado, quase nenhum registro e o dono, invariavelmente o Sô Fulano ou a Dona Fulana, sabendo exatamente onde encontrar cada coisa e quanto deve cada cliente.
Uma das idiossincrasias do Sô Vicente constituía-se no registro das dívidas. Ele usava dois tipos de registro: aqueles feitos em capas de maços de cigarro ao avesso e os feitos em papel de pão, que eu nem sei onde ele comprava, posto que não se embrulha mais pão há que tempo...
Não havia outro registro. Minha ética me impediu de testá-lo algumas vezes. Era comprar, não pagar e ficar esperando pra ver se ele denunciava. Até onde eu pude ir, minha Nossa Senhora dos Contabilistas, ele tinha tudo em regra e bem passado.
Eu, que não dou conta de gavetas, como é que ia dar conta daquelas pilhas de sei-lá-o-quê que ele sabia de cor? Não dava e, não dando, tudo se resumia, se eu comprasse a Lojinha do Sô Vicente, em migrar das técnicas do conhecimento para a inteligência do negócio. Era possível que eu me saísse melhor!
Era possível, eu digo, mas não garantido. Aquele era o mercado do Sô Vicente, o jeito dele fazer as coisas e é como se os resultados da Lojinha se imiscuíssem nela mesma. Não fossem aqueles, não era a Lojinha. Não fosse a Lojinha e os resultados não seriam aqueles.
Um equipe inteira de consultores e eu havemos de passar um tanto de horas conjecturando de melhorar a Lojinha do Sô Vicente e sabe onde ele vai estar enquanto isso, sabe? Vai estar em Guarapari, que era pra onde ele ia quando lhe enchiam o raio do saco, às vezes deixando alguém em seu lugar com umas recomendações, às vezes não deixando nada. Baixava as portas e dizia:
_ Fui!
Não sei se o Sô Vicente ainda vai estar lá, vou até passar para conferir, que carece. Mas o fato é que, de outra maneira, as chances são para um supermercado e para a tal da “Business Intelligence”, cubos de decisão, suportando a preferência do consumidor.
O Sô Vicente certamente não despreza isso, mas também não quer. Ele sabe bem é do conhecido que está na sua cachola. Gerencia estoques de acordo com a preferência do freguês e o agrada naquilo que mais importa, no caso em questão: ter perto e mais caro o que se precise, vendendo fiado e mediante um dedo de prosa. Que negócio, heim?
Entre a inteligência e o conhecimento não carece de ter uma briga. O nosso Sô Vicente pode ser nomeado consultor empresarial para a gestão do conhecimento e vai nos ensinar até os truques para, passando o que sabe de pai pra filho, fazer dar certo o boteco deste último, que é coladinho à Lojinha. Não vai fazer cubos e pouco fará contas.
O supermercado, é certo que podia ensinar ao Sô Vicente um jeito de girar melhor o estoque e acertar cada vez mais as necessidades do seu cliente. Uma simbiose perfeita. Inteligência de negócio e gestão de conhecimento.
As duas coisas deviam ser a mesma coisa. Deviam ser irmãs. Infelizmente não são. Trata-se de gêmeas separadas no berço, uma com eterna saudade da outra. Estou tentando juntar de novo as lactentes e dar-lhes de beber da mesma sede.
Não são opostas. Possuem apenas gênio diferente, mas brincam juntas como ninguém, em que pese o glamour da primeira, que ofusca a intuição da segunda.
Quem tiver coragem que as reúna, que brinque com as duas e ao mesmo tempo, que pare de dizer que não dá conta da aventura do conhecimento, no mundo de cubos e decisões de negócio do Sô e do Senhor Vicente.
Gestão Gestão de Conhecimento Inovação Princípios da Empresa Essencial Simplicidade Corporativa
0 Comentário(s)
30 de Agosto de 2010