A Empresa com que sonhei
No mês e ano em que a PLANSIS completa 20 anos, vale recordar os motivos que a fizeram nascer.
A Empresa com que sonhei
Meu prezado Amigo Geraldo,
Ontem me aconteceu daquelas que, se eu contar você acredita porque me conhece: comprei um livro!
Bolas, dirá você, e que novidade há nisso?
Hás de entender-me ao final, direi. Foi novamente um livro do Rubem Alves, e só esta pista é inútil pois que, no tempo recente, só me vês com livros de Rubem Alves nas mãos como a dedilhar um instrumento que se aprende novo, cheio de armadilhas e trejeitos. É fato: estou aprendendo Rubem Alves, mas eis que me surpreendeu o novo encontro.
Chamava-se agora a peça a ser tocada A ESCOLA COM QUE SEMPRE SONHEI SEM IMAGINAR QUE PUDESSE EXISTIR.
Li-o numa só noite ou quase. Enquanto lia, chovia, e pareceu que os céus tocavam sinfonias, brindando meu súbito despertar. Parafraseei Cristo Nosso Senhor enquanto virava as páginas: Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste todo esse tempo? Porque não soube antes que a Escola da Ponte (assim se chama, Lá em Portugal) existia?
Achei que devia ter lido antes o tal livrinho e fiquei a me culpar enquanto buscava água na cozinha. Mas o Rubem Alves, além de assumir a culpa já desde o título, salvou-me nos registros bibliográficos: livro escrito em 2000, edição de 2001, acho que a primeira. Respirei mais aliviado.
Mas o fato é que lia enbevescido as páginas, dez, vinte, mais até, e lá pelas tantas me bateu seu nome na cabeça. É para você que tinha que escrever a primeira carta de ONDE É LÁ? A RESPOSTA. Prá você, porquê precisamos esclarecer nossa conversa de tantos anos atrás, acho que 1987, no parque municipal de Belo Horizonte. Trabalhávamos por ali. Havíamos almoçado. Estávamos jogando conversa fora, uma da tarde. No fundo, já nos perguntávamos, onde é Lá?
Nos queríamos fazer diferente os lugares de trabalho em que fomos jogados recem-saídos da escola. Achávamos que tínhamos a chave da coisa, um certo jeito maroto de encarar a vida e ver o que ninguém via. Pensávamos que sabíamos onde é Lá.
Não, não me censure por contar segredo que guardamos inutilmente todo esse tempo. Éramos tudo por cento presunçosos. Não falávamos só de novas técnicas de gerenciamento. Falávamos de pessoas, de como poderíamos cativa-las, criar uma empreitada nova e diferente. Prefiro chamar empreitada que empresa, porque é isso que era aquele tempo, de empreito e sonho.
Dali só fez crescer aquela nossa presunção e lembro-me até que, indo para São Paulo juntos, anos depois, costumávamos dormir em Bragança Paulista. Nosso caminho era um colóquio de planejamento, e demos até de fazer estratégia musical, você se lembra? Foi dali que compramos um sintonizador FM para a empresa, que hoje, mercê do apagão, jás desligado e inerte. Queríamos um gravador de rolo de onde pudéssemos emitir os sinais de vida da nossa empreitada diferente. Adágios, andantes, cavalaria, quando precisasse.
Já sabemos, Geraldo, que Lá não era isso. Afinal, salvo maior engano, ainda não estamos em Lá, somente a caminho. Mas o que me tocou na Escola da Ponte, e vou precisar recomendar, sem muita esperança, que você leia o tal livro, o que me tocou é que existe. Não acho que a escola seja Lá, não acho, sem a conhecer. Mas acho que estão mais perto, ousaram mais, conheceram no horizonte sinais da terra de Lá.
Nós, ao contrário, preferimos acreditar que o nosso Lá estivesse dominado, como julgávamos aquela vez andando pelo parque. Tentamos de muitas formas. Estamos a caminho e, aquele que nos ler, já agora, entre perguntas e arremedo de respostas, terá a certeza de que, pelo menos eu, não sei mesmo onde é Lá.
Faço-lhe agora uma revelação maior sobre a Escola da Ponte e decifra-se o enigma. O que me intrigou de verdade naquela Escola que a realidade, testemunhada pelo Rubem Alves, desautoriza chamarmos de utopia, o que me intrigou é que não contaram o antes nem o depois. O antes, o que fez nascer a idéia da Escola da Ponte, contra toda a ordem estabelecida. O depois, o fato de que aqueles miúdos (lembre-se, estamos em Portugal) vão para o mundo, vão ser artistas, esportistas, cientistas, trabalhadores enfim. Tendo estado muito mais perto de Lá do que nós, o que poderão nos ensinar?
E será que nos suportarão? Sim, porque fico a imaginar um deles, desgarrado pelos ventos de camões, viesse pousar aqui no Brasil e trabalhar em nossa empreitada. Podia ser um desastre ou um choque ou os dois. O pequeno, então rapaz ou moça feitos, certamente nos olharia e nos diria: aqui não é Lá!
Enfrentemos a realidade, velho amigo: Não construímos Lá, pelo menos não ainda. Tentamos de tudo um pouco e a vida foi nos convertendo, foi nos mostrando dia por dia o que importava e o que devia ser posto fora. Acho que agora estamos atordoados mas em prontidão. Temos um certo senso de Lá. Como cães, cheiramos as pistas e desconfiamos que Lá fica "praquelas" bandas, vê? Estou apontando!
Na Escola da Ponte as crianças se ajudam e existem até listas de voluntariado: os que precisam de ajuda, os que podem ajudar. Na escola da Ponte, sem que ninguém tivesse a gentileza de nos avisar, estão construindo um futuro como rogamos construir em 88, estão formando gente que pensa em cidadania e para quem o trabalho se converterá em algo que valha a pena fazer, estou certo.
Sei que o Professor José Pacheco, que fez com muita gente mais a Escola, não se importará se pensarmos, muito além dos muros daquela Sociedade na Vila das Aves, numa Empresa da Ponte, algo que faça sentido para todos nós como um projeto de construção, não mais na Escola, mas no trabalho ou, melhor que isso, no trabalho feito como se faz nesse bairro nos arredores de Lá: a Escola da Ponte.
Sim, porque muito do que estamos todos fazendo nesses dias loucos nem sentido faz. Acho que fazemos porque fazemos, não tem precisão, lembra de minha vó?
Acho que eles, Lá, além mares, tem suas esperanças de infectar o novo mundo com seu pensar diferente. Gente se ajudando, e desde a tenra idade! Incrível!
Por isso, amigo Geraldo, quando conto que comprei um livro você agora acredita e entende que tão diferente tenha sido esta vez. A Empresa que sonhamos pode existir, porque a escola que de alguma forma também sonhamos, existe! Isso tem que ser parte de Lá, tem que ser.
Eu, de meu lado, queria muito atravessar esse mar e ir dar naquela vila, conhecer os meninos, tocar com minhas mãos. Queria matricular meus filhos na escola do Rubem Alves, uma escola da Ponte no Brasil, sobre a qual ele tomou coragem de especular no livro. Tenho esperança que, lá na escola onde estudam agora, também pensem em Lá e estejam a caminho. A Ponte lhes fará muito bem!
Eu, de meu lado, tendo sido traído pela realidade que, passados quarenta anos, jurava que me daria argumentos para dizer que Lá ficaria para outra geração criar, eu, de meu lado, preciso de novo arregaçar as mangas. Sei que Lá precisa ser construído e podemos começar agora mesmo.
Já me sinto a caminho e, por isso, peço que aqueças a água para um café, juntando-se a mim e ao grande Nelson, com quem reflito estas palavras. Vamos precisar atravessar as noites, rasgando os cacos de lembranças do que achávamos que queríamos fazer, porque, diz o Rubem, se tivermos memória, não encontramos o caminho de Lá. Ficamos presos no passado.
Te convido a sentir o projeto, cheios de vontade de nada, a não ser da felicidade de saber que, bem longe, alguém já começou a construir o sonho de Lá, aqui mesmo na terra.
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15 de Agosto de 2008