Caso de Sucesso
Senti-me inusitado (deve ser esta a palavra) quando me pediram para falar sobre sucesso. Argumentei mesmo, entre risos, que entendia mais de fracasso e os risos ficaram na minha cabeça, querendo dizer que aquilo era muito sério, que substituir sucesso por fracasso, em qualquer colóquio, poderia ser prova inconteste de minha insanidade e depressão. Paciência!Eu, mesmo me sentindo assim, como direi, envergonhado, concluí que os que trabalham sabem mais de fracasso mesmo, que de sucesso, este um caso mais de revista, mais de televisão, muito menos crível.
Engraçado que o Machado de Assis veio me incomodar duplamente. Primeiro, porque me lembrei do sanatório do alienista: se eu souber, de verdade, o que é sucesso, é possível que me reste prender-me em minha empresa e deixar o mundo livre de minha descoberta, sem motivo qualquer que o faça ir em frente. Melhor que eu seja anátema!
Depois, porque me inspirei no Brás Cubas para criar, pasme você, a cura do mal-do-século. Para ele, naqueles idos, a melancolia. Para nós, nestes tempos de globalização, uma sua versão piorada: a melancolia da falta de sucesso!
Eis, portanto, que me proponho criar o Emplasto Roberto Francisco para o sucesso empresarial, verdadeira panacéia do século XXI, melhor que chá de quebra-pedras ou de trançagem.
Foram anos de pesquisa para chegar a este resultado. Usei, devo admitir, de um método pouco ortodoxo, em busca da grande descoberta. Assim foi.
Depois de misturar uma boa quantidade de ervas de que ouvira falar desde a minha infância, para os mais diferentes males, fui excluindo aqueles que, por certeza, não produziriam o efeito desejado. Primeiro exclui a babosa e, devo admitir, pelo mais puro preconceito, posto que sempre detestei quando me davam chá da dita planta, acho que para vômitos. Eu achava mesmo que era para causá-los e, vai daí, decidi que no meu sucesso ela não participava: foi posta fora!
Depois comecei a tirar umas tantas coisas que a vida me ensinou que não produzem o tal sucesso. A sorte, por exemplo, precisei tirar por uma questão mercadológica. Entendi que, não tendo sorte a maioria dos viventes do trabalho, ou pelo menos julgando que não tenham, seria imprudente ter que explicar a presença de uma quantidade muito grande deste produto raro em minha fórmula. Deixei um bocado bem pequeno, admitindo que daria, além do mais, um certo charme a meu emplasto.
Em seguida, avaliei o efeito de um trabalho exaustivo, estafante e, partindo de minha própria experiência e de tanto Brasileiro lutador desta terra, considerei que tal qualidade não contribuía. Pus somente uma boa pitada de trabalho, mas que não tanto assim, de modos que o composto deu a seu usuário um ânimo peculiar para o esforço do dia.
Confesso que o dinheiro foi um elemento que busquei com certo esforço para a composição, mas havia aí um problema. A escassez deste bálsamo tornaria a fórmula inacessível aos menos privilegiados, justamente os que, julgo, seriam meus melhores fregueses. Era preciso que o emplasto fizesse efeito sem levar em conta a necessidade mais imediata do componente, motivo pelo qual determinei que, mesmo sem um dinheiro inicial, seria preciso ter sucesso assim mesmo.
Era preciso que meu emplasto fizesse surgir no cliente uma inusitada criatividade e esta, que bem procurada, é mercadoria de vasto encontro, eu coloquei aos montes. Previno o paciente que o efeito é efervescente, subindo-lhe umas quenturas que lhe aquecem o pensamento de imediato.
Que um pé-de-vento tomasse o corpo do usuário, por outra, imaginei que servisse bem. Que ele ficasse um corisco de agilidade e presteza. Isso, que não se acha fácil, busquei na dose correta e minha esperança é que tenha acertado, para não causar efeitos colaterais.
Muita simplicidade. Isso que muitos acham que têm mas, bem examinados, confessam logo a ausência, isso era primordial. A simplicidade de mesa, de gaveta, que, uma vez bebido ou emplastado o paciente, ele passa logo a detestar, de papéis que passa a ler e logo dar fim que preste ou nenhum. Simplicidade de soluções para tudo e de vivência mesmo.
Pus uma mão cheia de clareza e esta foi difícil de encontrar. Tomado na forma líquida, o morrente logo passa a falar direto o que pensa, com objetividade, limpinho, limpinho. De minha parte, até separei um pouco a mais na fórmula que uso, que nunca é demais ser claro!
Depois de bem amassada a mistura, cobri com harmonia para fixar a pele. Isso faz toda a gente trabalhar junto, em prol de um objetivo comum. Fica até bonito ver todo mundo de emplasto no braço, compartilhando o que sabe, achando solução junto pras coisas.
Cozinhei na graça de Deus. Se você não crê não custa usar que não faz mal. Tem até que prefira uma versão com mais sorte e menos graça, mas eu acho que uma coisa não seja a outra e por isso é melhor conservar-me mais tradicional.
Tudo certo, está embalado e pronto para a venda. Faz um tempo que eu uso e, tenho para mim, os efeitos são lentos mas seguros. Outro dia, um amigo que me percebeu nos invernos da alma, como diria o poeta, me mandou esta:
"Os obstáculos não conseguem me derrotar.
Cada obstáculo cede a uma obstinação implacável.
A pessoa que mantém seu foco em uma estrela jamais desiste."
Ele disse que foi o Leonardo da Vinci que escreveu isso e emendou: achei a sua cara, Roberto!
Meu emplasto já estava pronto. Tive que rever a fórmula. Fiquei lembrando do Herman Hesse que tinha um livro com esse nome: obstinação. Esse livro sempre me tocou, pensei, será por quê?
Resolvi colocar uma pitada. Pelo sim, pelo não, salpiquei mais um pouco da Graça de Deus, que o meu amigo disse que era bom demais aumentar.
Acho que assim ainda chego Lá, com meu emplasto. Não quero ficar que nem o Brás Cubas, quando dizia:
“Vivia,
deixava-me ir ao curso e recurso
dos sucessos e dos dias,
ora buliçoso,
ora apático,
entre a ambição e o desânimo”.
Afinal, mesmo não sabendo se meu ungüento vai ter serventia para você, leitor, se o comprar posso dizer que parte do meu sucesso estará, irremediavelmente, garantido.
Colaboração Gestão Simplicidade Corporativa
0 Comentário(s)
14 de Junho de 2010