Na dúvida, aos leões!
O close de Judith Mair, empresária alemã, estampado na página de entrevistas de uma das revistas de maior circulação no país esta semana, confesso que me suscitou dúvidas. (Para saber mais sobre Judith Mair: http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT1008158-1666,00.html).Mergulhei no texto com o apetite aumentado por um artigo de nome provocante, “Vai ser feliz em casa”, que, faz uns meses, me instigou e aos meus, gerando debate e reflexão.
Esmiuçando sua foto, seu olhar monalísico, sem lhe poder dirigir palavra alguma que investigasse o tamanho de sua determinação, disparei meio a esmo: Não tem certeza do que fala!
E tento provar.
Aos leitores caberá a tarefa de adquirir a revista e talvez seu livro, “Chega de Oba-oba”, para compreender melhor suas propostas que, de forma não autorizada, tentarei resumir numa frase, dando-me todo o desconto permitido aos oponentes: Hora de trabalhar, trabalhar. Hora de descansar, descansar. Empresa não é lugar para amigos e clima de trabalho é dispensável, quando se propicia ao funcionário, de fato e de direito, suas horas de lazer com a família.
Em essência, faz sentido, mas parece faltar algo, como falta ao pão fresco e tostado a cremosidade da manteiga.
Frau Mair não tem certeza, é o que me pareceu. Fala porque não deseja experimentar o outro lado.
Minha tese, já conhecida, é de que o debate do conhecimento na Empresa é debate de Educação: nasce bem antes, na Escola, onde os homens são forjados para empreender e serem empreendidos. A forma como agimos nas corporações é um eco do que fomos como alunos, em longos anos de estudo.
Resumindo: a Empresa que somos é a Escola que fomos.
São estilos possíveis que sejamos, ou tolerantes demais num extremo, ou legalistas demais, no outro, exigindo, nesse caso e a rigor, tudo e somente o que se contratou com nossos funcionários. O problema é que os extremos, e isso já nos provou a história, são mais fáceis de freqüentar que os pontos de equilíbrio, mas é muito mais difícil permanecer neles.
Judith parece apregoar suas regras olhando para o lado oposto ao seu e dizendo, não sem sua dose de razão, que delegação, horário flexível, equipe e toda sorte de aparentes benefícios promovidos pelas corporações não são mais que um cala-boca, uma forma politicamente correta de obrigarmos a horda a mais trabalho e trabalho que invade a privacidade.
Mas não me convence! Primeiro porque, se é verdade que empresas são escolas disfarçadas, e nesta verdade dou ao leitor todo o direito de discórdia, se é verdade, talvez não soe razoável dizer a trabalhadores que são alunos: vai ser feliz em casa, porque escola, isso é certo, é lugar para se viver com felicidade, um lugar onde é preciso que se deseje ir para construir sonhos.
Mas pode ser que ela não aceite meu argumento e diga:
_ Empresa é empresa! Não tem nada a ver com escola. Isso é puro romantismo!
Poderia então insistir no argumento e invocar a metáfora dos pássaros no excelente “Para Alice, com amor”, do Educador José Pacheco, Escola da Ponte, Vila das Aves, Portugal. Ele descobriu que, por lá, habitam pássaros nefastos aos quais batizou “Porquenões”, seres obscuros que freqüentaram os muros de sua Escola e que, quando questionados sobre sua forma ortodoxa de ensinar, logo rasgam:
_ Não pode de outro jeito porque não pode. E pronto!
Mas talvez não sirva ainda já que, de novo, invoquei as artes de educar. Nas regras do nosso jogo, isso também não pode porque não pode!
O argumento que me resta é de ordem prática, D. Judith. Trata-se de certa indolência, pouca ou nenhuma vontade de fazer diferente, de construir grupos que pensem, que sintam, que cresçam e façam crescer pessoas, além, é claro, do lucro. Na empresa que estamos construindo, não nos esquecemos dele e nem da falta que faz o dinheiro que, quando sai pela porta, a felicidade, mesmo a corporativa, sai junta, pela janela.
Lá, nós fazemos constantes excursões ao inferno. É como convencionamos chamar o trabalho depois do horário, viagens demais, reuniões demais, pressão demais, e é também como chamamos a um regime de ditadura como o seu, mesmo quando ele é, singelamente, “para o bem de todos”.
Nós também, e com incômoda freqüência, somos obrigados a viver extremos, minha colega Empresária. Como você disse, neles somos menos enganados, por mais que tornem o trabalho um mero hiato entre os momentos de vida, antes e depois da lide diária.
Sabe, Judith, permita-me tratá-la com mais intimidade, aqui nós aprendemos que gente feliz em casa tem muita chance de ser feliz no trabalho e que o contrário pode ser verdade, para o bem ou para o mal. De novo, perseguimos o equilibro entre ambos.
Por isso, dia após dia, o que mais fazemos é tentar, mudar as fórmulas, questionar as formas, mas sempre plenos de Esperança. No dizer de Dom Helder, a Esperança nos faz homens e eu acrescento, homens alegremente menores que Deus.
Mas Esperança em quê? Você há de se impacientar.
Esta é fácil responder. Falo da Esperança nas pessoas. Sabe, Judith, tudo é uma questão de compreender. Venho lutando por isso por vinte e dois anos, que as pessoas compreendam o poder que guardam para transformar uma empresa, suas vidas, seu futuro. Sobretudo espero que o façam por construção coletiva, com fé e de forma divertida. Não tenho conseguido sempre.
A vida me ensinou, neste tempo, que vamos perdendo alguns pelo caminho, alguns que nunca compreenderam o quanto é bom, adequado e sério, brincar de trabalhar. Para estes, os extremos foram mais confortáveis. Muito dinheiro e nada de vida, de um lado, ou nenhum projeto de outro, nem corporativo, nem profissional, nem pessoal.
Mas nos extremos a vida é previsível e fácil. Neles, não vivemos aventuras desnecessárias num mundo globalizado (como eu gosto de falar esta palavra que me faz parecer um cidadão do mundo!).
Fico no meio, justamente onde o inesperado me provoca todo o tempo e me convida a criar. Agora, cara Judith, você já sabe que nem concordo consigo nem com seus opositores. Estou nesse campo intermediário, o campo da batalha, o pior dos lugares para se querer ficar quando se é ajuizado o suficiente para não correr o risco da aventura humana.
Sobretudo, vou me reformulando para permitir que as pessoas pensem, criem e se tornem protagonistas de sua história. Sei que é pedir muito. Sei que, a prosseguir entre os acertos e erros de todos estes anos, tenho poucas chances de construir a empresa de sucesso que você preconiza.
Mas as chances existem e isso me excita. De novo tenho Esperança e, de todo modo, sei que não conseguirei recuar.
Pequena Judith, agora a trato com carinho de irmão mais velho. Pelo sim, pelo não, acho que você está certa, sobretudo se não deseja correr o risco de uma aventura com gente. Aconselho-a pois, a seguir em frente e implantar sua ditadura do trabalho.
Com o tempo, acho que vai ficar monótono. Acho que vai ficar chato. Acho que vai ficar formal e pedante, mas, na dúvida, devo reconhecer, melhor jogar seu time aos leões. É muito mais seguro e previsível.
Amizade Colaboração Educação Felicidade Gestão Gestão de Tempo
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10 de Maio de 2010