Crareza

Estamos tentando ver se dá pra expricar as coisa com mais crareza. Compreendeu?

Crareza, substantivo feminino, parente próximo do verbo crarear-as-coisa.

Não é assim que a gente fala? Pois é!

A tal da gestão do conhecimento exige crareza de raciocínio e de comunicação. É pecado original que ela comete. Ninguém sabe o que é esse trem. Senão vejamos.

O Jener, filho do Chico, grande Chico aparentado por função ao Fortunato e mantenedor da ordem em pias, ralos, paredes e corações, já falecido e com sorriso monalísico estampado na parede da empresa, o Jener não estava sendo craro.

Arrumou uma namorada e despirocou geral. Deu seu coração e seu celular pra ela, este último, símbolo maior da pseudo-inclusão-tecnológica da nossa sociedade, e se tornou um doce de pessoa... Com ela!!!

Armou de largar o emprego e usufruir de merecidas férias, às custas do seguro desemprego, enquanto, entre pernas roliças, devia estar se ruborizando em descobertas.

Mas, com os outros, deixou de ser craro. Não falava nem fazia mais coisa com coisa. Pôs na cabeça que ia arranjar serviço muito melhor, assim, sem mais cerimônia, e tome sumiço.

_ Jener, por que isso, por que aquilo?

_ Sei não. Eu sei é que vou casar!

Não deu jeito senão o jeito de deixar sem jeito nenhum, esquecer, deixar o tempo passar. O diabo é que o Chico ficava lá me olhando com aquele sorriso esquisito, que tanto podia ser de incentivo quanto de deboche, e eu passava todo dia e rezava pras pernas roliças nunca mudarem de posição, pro Jener estar certo e eu me livrava incondicionalmente do inferno.

Corta pra recepção e toca o telefone. Era ele. Eu tremi. Deus devia estar me testando, só podia. Fiquei pensando que podia ser um convite de casamento, qualquer coisa assim, e aliviado quando nem quis falar comigo. Só mandou indiretas. Foi gente chegando e chegando e dizendo: você precisa falar com o Jener, essas coisas que só se fala quando se deseja por o cristão em prova de martírio.

Tive com ele estrordia. Parecia magro, de uma magreza mais sem graça que sem comida. Os olhos não brilhavam mais. Acho que as pernas, enfim, mudaram de posição. Que remédio?

O tempo foi passando, arruma-se aqui e ali um bico, uma coisinha qualquer. O danado é que ele trabalha direito, se a gente for claro com ele. É só explicar direitinho e as coisas vão saindo.

Ontem dei foi uma carona. Quando saímos do carro, eu raspei a garganta e disse que podia até fichar de novo, estava falando meio embolado mas ele captou tudo bem clarinho.
_ Olha, Roberto, comigo burrada é uma vez só. Não acontece de novo. E o filho da p... Ainda me cita o pai, justamente o Chico, dizendo que este sim, este ensinou a errar e não errar mais nunca igual. Ô golpe, senhor, ô golpe!

_ E você me desculpe pelos problemas que eu causei. Agora eu entendo que era burrada, que fiz muita gente se sentir mal. Falou, falou, foi se colocando no meu lugar e tentando esclarecer.

Queimei no golpe, queimei e não queimei, porque nem sabia se mandava ele para a p... Ou se, por outra, matava o cara. Mas falei pausado:

_ Olha, Jener, problema você não me causou nenhum. Você arranjou problema foi pra você mesmo. O que você me fez foi passar muita raiva!!! E, postas as coisas claras, ia me armando para um sermão mais comprido que o de padre de Piada, quando ele me olhou, sorriu um sorriso muito parecido com o do Chico, e disse, com tranqüilidade:

_ Se é assim então, você me desculpe pelas raivas que eu fiz você passar. Se despediu e foi atravessando a rua.

Eu, que ia pro dentista, quis voltar lá e empurrar ele em baixo da lotação. Mas a raiva passou com aquela declaração.

Enquanto eu ouvia o motorzinho em estéreo e a dentista dizendo, se doer levanta a mão, levantei a mão e não adiantou nada, ela continuou como se eu nem ali estivesse. Fiquei pensando: mas que falta de crareza, como é que ela acha que eu me sinto aqui, imobilizado nessa cadeira?

Meu pensamento voou uns quarteirões e alcançou o menino Jener. Me desculpe as raivas... Achei que ele tinha compreendido como eu me sentia. Conclui a respeito dele, enquanto levantava esperançoso a mão esquerda, que finalmente sabíamos como nos sentíamos. Mais clareza, impossível!!!

A propósito, a dentista não parou de novo, por mais que eu pulasse, chiasse e levantasse mãos e braços, numa total falta de crareza de comunicação...

 Amizade  Educação  Ética  Gestão  Simplicidade Corporativa  0 Comentário(s) 8 de Fevereiro de 2010



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