O pedágio do Burro

É caso certo e contado. Aconteceu comigo na divisa do Espírito Santo com a Bahia em Riacho Doce. Uma espécie de versão tupiniquim do dia das bruxas, em qualquer dia mesmo:

_ Doçuras ou travessuras?

Me pediram foi biscoito se não tivesse dinheiro. Foi assim.

Uma estrada tortuosa por meio daqueles eucaliptos que enganam a gente, fazendo pensar que o mundo está preservadinho da Silva até que vira papel. Lá ia eu, passeando de carro pelas bandas do Riacho Doce, dei com uma porteira fechada que nem porteira era, mas uma corda. Duas meninas de quem guardei foto, acho que a Telma, se guardei também a beleza do nome, duas meninas e um Burro e uma corda e um pedido:

_ Me-dá-um-dinheiro-e-se-não-tiver-dinheiro-pode-ser-biscoito, dito assim, de carreirinha, a mesma que deram quando viram o carro.

A corda me protegia da tentação de seguir em frente como fazemos na cidade, quanta vez. Para trás era desistir nem sei de que, porque eu não sei pra onde eu ia se desistisse, de modos que comecei  rindo e rindo, todo mundo no carro rindo e elas não. Estavam impassíveis.

Acho que se eu não desse dinheiro nem biscoitos faziam uma loucura, invadiam o Iraque ou se juntavam ao Bin Laden. Acho que pior. Podiam chorar e chorar era o mais sensato a fazer diante da situação. Se chorassem eu voltava cá atrás e comprava montes de biscoitos.

Num güentei pagar pra ver. Olhei nos olhos delas e me deu vontade de tirar uma foto, mas do meu lado, na mais impávida posição, ninguém menos que um burro me encarava. Tenho foto e provo! Era tanta a empáfia e prontidão que mais pareceu um pastor alemão bem apessoado. Sabe assim, quando o cara, o tal burro, só te olha e faz ares do-que-vier-eu-traço, assim, calmo, sem dizer palavra.

Concluí que era estratégia de time, porque as meninas do lado de lá se calavam como se tivessem certeza de que eu arranjava nem que fosse papa ovo amanhecido.

Bati as fotos, as tais provas que afirmo ter e mostrarei, se inquirido, em algum juízo.

_ Se a gente pagar você tira o Burro, tira?

Fizeram que não entendiam. Olharam uma na outra, riram e continuaram na janela olhando pra gente, elas e o burro.

Pagamos e a corda caiu, corda que não segurava nada nem o burro. A gente passou, parou o carro, desceu e foi andando pela praia na direção do Riacho Doce. O bonito que é lá é caso de outro caso, mas deu que voltamos e de novo as meninas correndo pela estrada, engolindo biscoito e dizendo, dizendo não, que não deixamos, querendo dizer que valia outro pedágio, era o que sabiam fazer.

Cederam sem barricadas e passamos, eu olhando pelo espelho elas ficarem na poeira. Era o que sabiam fazer. Essa frase ficou na minha cabeça até agora. Eu até voltei lá ontem , meio a contragosto, indo conferir mais o Riacho e lá estavam elas, era o que sabiam fazer.

Meu Deus, era o que sabiam fazer, entrasse e saísse dia, entrasse e saísse ano, eu lembro de um filme em que uma mulher condenada tinha que ficar décadas olhando uma janela, meu Deus, protege elas, é o que sabem fazer.

Mas eu tenho um plano, um plano secreto, um que vai revolucionar aquele pedaço de terra. Posso treinar o burro pra atacar e aí tudo muda. Ensino as meninas a dizerem que “são terras particulares” e outras asneiras que os mais conhecidos-entendidos usam nestas horas de ganhar dinheiro.

O carro pára. Não se pede mais biscoito, só dinheiro que fica mais chique. Se o cara não dá o burro rosna e todo mundo se assusta, pagando o preço que for pedido.

Grande plano ensinar esse conhecimento a elas, grande plano. É isso que fiz o   tempo  todo  que viajei, imaginando  como lugarejos miseráveis podiam ser ricos se fizessem melhor o que fazem. Isso é a mais legítima gestão de conhecimento conjugada com um ensino a distância que imaginei fazer para enviar, lá da cidade grande, muito ensinamento pra eles. Grande plano, grande plano!!!

Grande plano? Não, uma completa idiotice, porque não se dá saberes a quem não pediu. Primeiro é preciso perguntar, o que lhe serve? Biscoitos? É com isso que se leva a vida por aqui? E os pedágios são com burros? Que original! Como podemos ajudar?

Assim, pondo-se a serviço, é esse conhecimento perguntado que vale a pena transmitir. O resto é uma asneira tão grande quanto confundir um burro com um jumento, que foi o que fiz, e aquela marca nas costas não é de cruza de pastor alemão, mas da Cruz do Cristo Jesus, é o que ensinam os que entendem, de verdade, desse santo bicho e de mais essa utilidade, de guardar, sem nem ameaça fazer, o pedágio do Riacho Doce.

 Amizade  Colaboração  Educação  Felicidade  Gestão de Conhecimento  0 Comentário(s) 3 de Fevereiro de 2010



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