Prezado Shackleton
Do poder de um motePrezado Shackleton,
Peço desculpas por incomodá-lo em seu descanso na Geórgia do Sul, mas é que cheguei, amigo, e somente a você e ao Espírito que o acompanhou em sua jornada, devo esta minha chegada.
Escrevi muitas cartas durante esse tempo, mas nenhuma parece tão presente quanto esta. Sua imagem, cheia de dúvidas, foi para mim uma constante nesses meses e se, para muitos, atravessar o meu mar do sul não foi nem de longe tão difícil quanto o seu, eu vivi esta travessia minuto a minuto.
Engraçado que, chegando, não há bandas de música, a menos que eu as convoque e não há sequer risos. Andei hoje pelos corredores de minha empresa em busca de um olhar que me dissesse: chegamos. Mas não vi esses olhares. Estão todos cansados, mas espero que satisfeitos.
“Shackleton foi o único a falar. - Conseguimos - disse, com uma voz estranhamente trêmula. Os outros não proferiram nem um som. Simplesmente olhavam em frente, esperando que a terra reaparecesse, para se certificarem”.
Sabe, amigo, meu maior medo é o seu destino. Quando soube que você retornou para morrer na Geórgia, tempos depois de sua travessia, percorreu-me um frio na barriga, como se meu destino estivesse irremediavelmente atado ao seu e eu também precisasse morrer logo.
Acho que não será assim, pelo menos não de forma tão determinada. Acho mesmo isso porque você não morreu, mas vive no relato de sua curiosa aventura em busca, pensemos bem, de coisa nenhuma.
O que você conseguiu, afinal? Não atravessou o pólo, não atingiu nenhum dos objetivos que traçou, mas ainda assim venceu. Como é que pode ser isso? Quando chegou o seu tempo você o contou de volta como eu conto agora. Será que eu inventei uma epopéia? Será que você inventou, amigo Shackleton? Ir para o pólo era uma temeridade dos aventureiros no seu tempo. Para mim, tratava-se da viagem, não da chegada, compreende?
“Eram cinco da tarde do dia 10 de maio de 1916 e estavam finalmente pisando na ilha da qual haviam zarpado 522 dias antes”.
Quando o conheci eu já estava a caminho, mas havia menos esperança. Então fingimos, eu e meus amigos, que estávamos perdidos no pólo, como você. Engraçado como, só agora eu percebo que era preciso parecer que tudo o que nos acontecera, todos os problemas que enfrentamos, não foram causados por nós, mas por uma força externa, que nos impunha esta condição e nos fazia lutar.
Só agora percebo que a luta era contra a gente mesmo. Contra mim mesmo. Só agora percebo, ficar todos estes meses isolado no gelo frio nos fez pensar em nossas vidas, em tudo o que queremos para nosso futuro. De onde você esteja, perto do Espírito Santo que tanto o guiou, deve estar feliz por nós...
“Ficaram contemplando aquela cena por vários minutos, em silêncio. Não parecia haver muito a dizer, ou pelo menos nada que precisasse ser dito”.
Sabe, Chefe, muitos dos meus estão cansados, agora que aportamos. Gostariam de ficar bem quietinhos, de tomar as grandes e filosóficas decisões da vida, de largar tudo, de fugir deste burburinho do mundo em busca de refúgio. E eu, meu amigo, você pergunta?
“A noite estava calma e o céu estava claro. A lua brilhava na pequena praia de seixos, banhada pelas ondas, um cenário de total tranqüilidade.” ·
Eu, embora contemple a noite, estou de partida. Meu espírito é irrequieto como o seu. Fico imaginando que não vou saber viver tão calmamente assim, que o mundo é minha mesa de trabalho, que novos desafios estão aí para serem vencidos e superados. Quero fazer isso com alegria.
“Sentado nas pedras, esperando que a manhã rompesse, Shackleton ···chegou à conclusão de que, em vez de seguirem de barco até Leith ···Harbour, ficariam na parte sul da ilha, enquanto três do grupo ···seguiriam por terra para buscar o socorro”.
Shackleton sabia das dificuldades - mas não tinha escolha. Anunciou sua decisão depois do desjejum, e todos a aceitaram, como sempre, sem discussão. Shackleton disse que faria a viagem com Worsley e Crean, assim que julgasse que chegara o momento certo.”
Gozado, amigo, como os problemas, agora, parecem até maiores, mas são, desta vez, a minha escolha e não a obra de um demônio que não consigo ver.
Acho que escolhas são sempre bênçãos de Deus. Acho que Cristo podia ter dito:
_ Bem aventurados os que escolhem, porque poderão escolher Deus!
É isso. Terminei de demonizar os que me fizeram mal. Que sigam as suas vidas em paz, é o que me ensina São Francisco de Assis, meu padrinho. Esforço-me por ter compaixão por eles, para que encontrem um caminho melhor para construir o mundo, se possível, a meu convite.
Sinto-me, de verdade, como você, no seu último impulso para salvar-se e aos seus. No alto de uma montanha gelada, sabendo que morreria se não descesse dali a tempo, e que não poderia voltar, você escolheu descer... Escorregando!!! A estação baleeira o brindava em baixo, cheia de vida.
“Worsley e Crean ficaram perplexos - especialmente pelo inesperado daquela solução doida estar sendo sugerida por Shackleton. Mas ele não estava brincando... sequer estava sorrindo. Estava falando sério – e eles perceberam”.
Sei que tinha medo, todo o medo do mundo, mas, naquela hora, a morte não importava mais. Aquele era o momento que faria a diferença em sua vida, não é amigo? Os que te seguiam também temiam.
“Mas e se batessem em uma pedra?, perguntou Crean”.
Perder não era sua forma de viver a vida, amigo. Você lutou com seu anjo cada momento da viagem, lutou com Deus e, como o Jacó, ficou coxo de espírito. Você, como eu, precisava se mover, não é?
“E podiam continuar onde estavam?, perguntou Shackleton, aumentando seu tom de voz”.
Para cada argumento, você tentava mover os seus, fazê-los seguir em frente. Ah! Como às vezes era difícil!
“A encosta, argumentou Worsley. E se não ficasse plena? E se houvesse outro precipício?”
Então, com firmeza, você decidia: _ Vamos em frente!
E é isso que digo agora, companheiro. _Vamos em frente! Eu quase não sei para onde, mas, para mim, Chefe, importa mais esta viagem que faço acompanhado de gente bacana e doida. Eu só gosto de gente bacana e doida. Não deve ter graça nenhuma trabalhar com gente normal.
“A paciência de Shackleton estava esgotada. Novamente, perguntou - podiam ficar onde estavam?”
Uns dias atrás a minha paciência também acabou. Viramos tudo aqui, acho que estávamos na nossa ilha Elephant, mas o fato, o bom fato, é que ninguém caiu do barco e, Deus, como ele balançava. Desde então, estou tomando fôlego para a descida e desço agora, furioso para a possibilidade de uma queda, encosta abaixo. Lá, bem no final, minha estação baleeira me espera. Estou, confesso, com vontade de gritar!
“O Grito era arrancado deles pela pressão que crescia em seus ouvidos e apertava seu peito. Cada vez mais depressa - descendo...descendo...descendo!”
Ao cabo desta descida, percebo o calor da chegada. Estou de novo no mundo dos homens, longe do gelo em que refleti todo esse tempo. Estou rindo e chorando, Chefe, como você.
“Então chegaram a terreno plano, e sua velocidade começou diminuir. Pouco depois, frearam de encontro a um monte de neve.
Os três homens se levantaram. Mal conseguiram respirar, e os corações batiam disparados. Mas começaram a rir incontrolavelmente. O que cerca de um minuto e meio antes parecia ser uma perspectiva aterrorizaste transformara-se em um triunfo extraordinário “.
Mas uma surpresa ma assalta, Chefe. Meu Deus, como pode?
Folheio de novo tudo o que tenho sobre sua saga, sua sina. Corria o dia 21 de Maio de 1916 quando você se projetou no abismo para a vitória ou para a morte. E você venceu!!!
No dia 22 de Maio, uma festa, nada muito grandioso, foi dada na estação baleeira em comemoração ao seu feito.
Estou trêmulo, olha, Chefe, como estou!!!
É que, quando comecei esta viagem havia uma data, uma data muito importante para todos nós. Era mais um símbolo. Perseguí-la nos manteve vivos, acreditando que nossos demônios seriam enterrados no dia em que chegássemos.
A data é 22 de Maio de 2005, curioso, não é?
Precisamente 89 anos depois de sua viagem, termino eu a minha jornada. Não posso deixar de fazer isso, sem repetir os versos de T. S. Eliot, lembrando você, chefe:
“Quem é o outro que anda sempre ao seu lado?
Quando eu conto, há sempre você e eu, juntos,
Há sempre um outro caminhando a seu lado,
Furtivo, envolto em manto escuro, oculto,
Não sei se homem ou mulher,
_ mas quem é esse que vem sempre depois de ti?”
Obrigado, Shackleton.
Obrigado, Espírito Santo de Deus.
Pode descansar em paz, agora, Chefe!
Estou novamente de partida para uma vida de alegria e felicidade.
Amizade Colaboração Ética Fé Gestão Simplicidade Corporativa
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2 de Novembro de 2008